conto

Amie

23:47

Nossos olhos fitavam a arma de um crime inafiançável. As lágrimas caíam de seus olhos num curso muito natural e não pretendiam parar. Eu cuspi e tinha o gosto do seu suor. Seu pranto era constante e dizia, inconsolável: “Eu não faço esse tipo de coisa”. Restava-me apenas concordar e repetir, repetir até ficar diferente. A minha inconsciência pesava sobre a minha consciência dizendo “Evoé Baco! Evoé Vênus!”, mas eu sabia que era o momento errado para alguém novo.
Seu rosto parecia transfigurar-se, enlouquecendo. Uma música insistia em tocar sem parar e cantava “Is that alright?”. Pronunciei-me, mas foi um equívoco. Se estivesse carregada, ela teria me matado. “Amor um mal”. Provavelmente, queria me calar durante o tempo que durasse a canção.
Lancei-lhe um olhar frio, gelado. Mas ela me atirou ao chão com levantar de suas pálpebras. Estava nua, sentada na beira da cama. No vão da porta, eu me apoiei, tragando mil sensações e, às vezes, um cigarro no canto da boca.

Ela se vestiu e finalmente.

***


Nunca tinha percebido quão cinza era o meu quarto, a minha vida. O chão me puxava. Sentei, deitei, chorei. Queria sentir seus passos, quando fosse voltar. Dormi por uns segundos e sonhei que fazíamos sexo, ao som da tempestade, num dia gelado. Você dizia que já estivera aqui tantas vezes e tirava o cinza das paredes com suas marcas de batom. Acordo, solitário. Lá estava eu a desfiar a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista.

Abri uma garrafa de vinho e deixei a canção me invadir.

***


Amanheceu e o silêncio era como uma xícara vazia. Escrevi duzentas cartas. Em algumas eu me desculpei, em outras a xinguei. Mas em todas pedi que voltasse. Ora dizia ser um mentiroso que merecia morrer, ora declarava-lhe um amor incondicional. Ouso dizer que não menti. Nas cartas. Precisava que ela soubesse e se lembrasse de quem eu era. Um romântico assumido, louco e desesperado. Não tinha outra saída, mas enviei apenas uma.

“Eu amo sua depressão e amo sua dupla personalidade. Eu amo quase tudo o que você tem a oferecer”.

***


Num dezembro cinza e cansado, as pessoas me desejavam feliz natal. Completamente inapropriado. Sentia falta dela, das mãos que sabiam exatamente onde tocar numa manhã de natal. Pude sentir seu cheiro, doce perfume. Era um telegrama.

“Querido,
Eu me lembro bem da primeira vez que vi seus olhos melancólicos. Lembro bem, porque a minha mente parou de funcionar quando te vi. Queria que estivesse aqui, porque conheci coisas maravilhosas. Estou distante, muito distante. Só quero te pedir que seja feliz. Eu sinto sua tristeza me chamando. Mas eu não posso voltar.
Estou casada. Feliz natal.
Amie”

Chorei, bebi e fumei. Meu carro estava me esperando. Dirigi a noite toda. “Que merda essa mulher quer de mim?”. Foda-se.

***


Abria e fechava o meu isqueiro na lentidão de quem estava embriagado e a observava do outro lado da rua. Entre uma e outra tragada do meu cigarro, eles se tocavam. A minha xícara estava vazia. Mas ela estava feliz, sorria mesmo enquanto falava.

Fui o seu maior erro.

Um garoto lhe entregou um guardanapo em que estava escrito “Um brinde, querida”. Ela limpou os rubros lábios e mandou de volta.
Eu posso esperar.

poema

23:13

Caindo, seguindo. Não tem volta.
No chão, encontro-te.
Amortecida, choro.
Meus pés encontram os teus.
És meu fim.

prosa

00:23

O arrepio demonstrou que eu pressentia sua chegada e o sorriso que aceitava sua permanência. Coberto de uma culpa inigualável, cobriu-me de sentimento. Encharcou-me com palavras vãs, encheu-me com o vazio. Não temi a falta de espaço. A recíproca era verdadeira e, por isso, toquei-lhe sutilmente. Era tudo o que queria. Numa questão de segundos, pude relembrar a primeira vez. Ele me escolheu primeiro. Eu era a preferida. Egocentricamente, eu ria quando a via. Pensando ser amada por completo. Porém, logo depois, eu me entristecia. Uma mulher tão linda não merece um homem tão medíocre. Ninguém merece e nem sei se eu posso chamá-lo de homem - no sentido moral da palavra. Estávamos proibidos de demonstrar qualquer coisa que sugerisse uma relação a mais do que a profissional. Mas eu denunciei pelo olhar. Por mais que eu soubesse que era amada, queria ser a única e verdadeira. De fato e de direito. Contudo, assim percebi que medíocre era eu, naquela situação. Não lhe toquei mais. A suavidade sublimou. Fiz-me forte e desapareci. Não liguei mais. E deixei-lhe um bilhete amarelo escrito “Prefiro assim”.

Escrito em 23.04.2010

prosa

Desejos

22:34

Quero ter um filho. Quero fazer aniversário duas vezes ao ano. Quero viajar até Pernambuco com uma mochila enorme nas costas. Quero acordar ao lado de um amor numa cama bem macia em Fernando de Noronha. Quero sair de casa. Quero fugir de casa pra te ver. Na verdade, não quero nada.
Sonhos aleatórios ocupam a minha mente de um futuro que não me pertence e que nem perto está. Deixam o ar rarefeito, difícil de respirar. Sei que tem nome pra isso, tem nome pra tudo nessa vida. Ansiedade. Se tudo se resume no desejo de que as coisas simplesmente aconteçam é porque eu realmente fico apavorada por não ter controle sobre tudo. Nem sobre mim.
A minha mente é um infinito rolo de fita. E desfia e desfia e desfia... Não importa em que época estarei. Vou sempre tentar prever ou, menos que isso, imaginar o que estar por vir. Acho que vivo mais e muito mais feliz nas coisas que imagino.
Ele disse que me amava e que queria ficar comigo pra sempre. Tiramos fotos pro orkut, pro twitter, pro facebook, pra minha parede. Trocamos alianças de amizade, de namoro, de noivado, de casamento, tatuagens. Vivemos feliz.
Aí eu acordo num estalo ouvindo Damien Rice numa noite solitária. Eu me nego a chorar, porque eu me sinto muito bem. Não sou bonita quanto ela. Mas sou amada. Constantemente amada.
E desfia e desfia! Bang. O anseio pelos momentos interessantes da minha vida me sugere vontades de coisas que não devo fazer. Suspiro e imagino. Enxergo de uma maneira ímpar.
Suas mãos passeiam sobre mim, se perdem, me perco, nos perdemos. Bluft. Faixa 7 do segundo CD do Damien. Ainda é noite, ainda é solitária. Ainda sou eu desfiando...
Tentei dominar de novo os meus pensamentos. Concentrei-me, troquei de música, mudei o público alvo. Na verdade, lembro bem daquela vez que o vi após a peça de teatro. Agora já era, se tentar prever não me bastava, fui então retroceder e rir e chorar o leite seco no assoalho.
E desfia...

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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