prosa

Sarom

17:40

mas eu podia ver, de onde eu estava. caída, através de um ângulo não muito favorável misturado com a poeira que o vento levantava. aquele homem segurava um frasco em suas mãos. e eu, contorcida, priorizei dizer a pensar. me ajuda, falei. ele parou, tentou olhar pra trás sem mexer os pés e suspirou muito, altíssimo, como se fosse um grito ou um murro na minha cara. não lembro se foi essa a exata ordem das coisas. não foi um suspiro de raiva, de preguiça ou de rancor. foi de tristeza. o que me doeu muito mais. o Sol me queimava a boca e eu sonhava estar em casa, mas nada era mais importante do que sentir o que eu estava sentindo. a cada passo que ele dava, o veneno percorria mais rapidamente o meu corpo. um misto de alegria e de medo me dominou desde o primeiro sinal que ele deu (ele me ajudaria?). o que foi muito insensato, porque era certo o meu destino, se ele não estivesse ali. senti como se estivesse revirando os olhos e não consegui saber como ele reagiu a isso. imagino que ficou imutável, como foi. 'você pode... vir... logo?' tossi. 'não'. eu estava sentindo a morte e não sei porque lutava tanto para continuar viva. quem diria que uma flor se transformaria em serpente. tudo culpa minha, eu sabia. mas queria, desesperadamente, que tudo voltasse a ser o que era. não era preciso muito para melhorar minha situação. ele se agachou e olhou bem para mim. ficou me analisando, segurando o meu queixo, com olhos gentis e compassivos. 'ou me deixa morrer ou me salva', tive ainda tempo de pensar. ele tirou o chapéu, colocou em mim, abriu o frasco e me fez beber. com a mesma cara serena e tranquila, enquanto eu me debatia tentando não beber o que quer que fosse. 'me deixa morrer, mas não me mate' é o que eu pensei depois, bem depois. não me lembro de mais nada. talvez tenha apagado logo depois. acordei, sem ideia de tempo e de lugar. e, ao abrir os olhos, com a visão ainda um pouco embaçada, pude ler "antídoto" no rótulo do frasco. não consegui explicar, até hoje, o que aconteceu. quem era, por que carregava consigo aquele frasco e por que era tão sereno. mas, sinceramente, passei a acreditar mais e explicar menos.

à noitinha

02:14

como é o nome, mesmo?

quando todos os sons parecem sumir
só restam os suspiros de quem o executa
e o peito aperta, como quem quer nascer de novo
a cada tempo, uma nova palpitação
e o coração parece que vai explodir/o pulmão desfalecer
fica ser ar, quase um asma de tão profundo
e você chega no ápice da poesia à conclusão de que
tudo não passava de um ronco do seu marido

02:13

notredame não é uma doença

mas é como ele que eu me sinto
quando a coluna começa a doer

01:01

o queijo minas falou:

- vai dormir, porque a noite chegou.

mas eu sou um rato com asas (!)

poema

híbrido

18:21

se me perguntar

eu vou bem
eu vou lá
ando sorrindo
porque desaprendi a chorar

tenho tantos
mas conto no dedo os principais
e, se não bastasse, um anjo
grita 'isabella', vem me pedindo mais

mas eu não fujo a regra
eu tô zen
eu sei lá
ando sorrindo
porque desaprendi a chorar

viro-me nos contos
reviro-me nas letras, nas noções
dessa vez veio o santo
e os mendigos transformou em campeões

conto 1, 2, 3
eu sou cem
eu sou má
ando sorrindo
porque desaprendi a chorar

prosa

the call

01:27

ei, deixa eu te dizer. se eu não escrevo mais poemas de amor, não é porque não amo, é porque não quero. e se eu não te digo mais que te quero, é porque já deu. fica assim não, achando que tô procurando sarna pra me coçar. eu tô feliz demais gastando meu tempo em me despreocupar. nessas em que o tempo parece não passar e quando vê, já foi. e aí você pensa que é desleixo meu, bobeira minha, molecagem, sei lá. né[não é] não. só tô me amando um pouco e sendo feliz por me fazer feliz. porque essas coisas de sentimento costumavam me enrolar a língua. mas agora, nem o cérebro faz o esforço. ah, vai. tá tudo tão bom aqui nessa tarde, a gente olhando a praia, aquele clima de ser feliz e tirar foto pra pôr no facebook. esquenta não, escreve comigo essa baboseira e amanhã quem sabe alguém consiga me fazer pensar nisso. mas nesse momento tô bem demais pra ter que carregar um mala sem alça. obrigada.

poema

velho novo

23:02

para tua palavra de ira

(que não era tão irada assim)
dei um sorriso
mas você achou que era mentira
falou, falou e nesse interim
percebi que éramos coisinhas
com um pacote de coisas em comum
gritando coisas desnecessárias um
ao outro



itapina na hora de dormir

22:56

mais engraçado foi aquela hora

quando a gente deitou
menina, veio um vento e lá pelas 4
começou a molhar tudo foi mó doideira
desespero sacou
saíram correndo negócio foi facil não
tacaram a parada em cima da barraca
pra, cê sabe, ninguém ficar fungando depois
me mandaram acender a luz, tava dormindo em pé
mas deu pra evitar só o frio

poema

13:18

um encontro comigo mesma

no topo da poesia intimista
ardendo amor-próprio
compartilho com a própria consciência
a experiência de estar só
o que não é exclusão
nem falta de inclusão
é uma escolha, um mergulho em si
solidão não é escolha
é doença, é tristeza, é raiva
estar só
é decidir pela não-intervenção alheia
por mais importante e inteligente que seja
seguir cada passo que o pensamento disser
o pensamento e Deus
uma experiência e tanto.
mas cansa

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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