02:59

o amor líquido secou
e grudou lembranças na pele
mãos, mordidas, beijos
encontros, risadas, medos
brigas, desculpas, cheiros
sexo, orgasmos, seios
dedos entrelaçados
inseguranças e desejos
nós desatando em todo lugar

o amor líquido secou
e deixou um cheiro na pele
agradável e enjoativo
tipo perfume barato

é, meu bem,
o amor líquido secou
e deixou, na pele, vontades

estrela da manhã

02:34


O sol brilhava leve, como um rei em seu trono, mas mais como um deus. Era a primeira vez que experimentava aquela sensação em anos. A vontade de tirar os sapatos e sentir o chão cru sob meus pés. Contive o desejo e me sentei num dos bancos vazios. Acho que por ter passado por ela tantas vezes em tão pouco tempo, acabei criando uma relação afetiva quase íntima com aquela praça.

"A morte é só uma parte". Pensei tanto nessa frase que acabei falando. A morte é como uma porta misteriosa. Existem apostas, mas com tantas opções, reservo-me o direito de acreditar que a morte é só uma parte da vida, assim como o nascer.

Continuo desse lado, tentando saber como está aí. Um pouco mais iluminado com a sua chegada - guardo essa certeza. São mundos tão próximos que, sei, volta e meia você me manda uma mensagem pra dizer que está bem, como se estivesse numa longa viagem. E, aceitando a metáfora, acho que esteja mesmo. Estamos.

Dia desses chorei feito uma criança. Minto. Chorei feito um adulto, o que é bem pior. Sabe quando a gente chora meio sem motivo, mas quando pensa tem pelo menos uma dezena deles? Você sabe. Você sempre entendia e, volta e meia, compartilhávamos desse momento.

Mas aí, de repente, um sol majestoso, triunfante. De repente, a beleza, a calmaria, a paz, a serenidade, o equilíbrio. De repente, depois de tanto frio, o calor. E ele parecia me dizer qualquer coisa, feito um assobio agradável. Fechei os olhos e sorri. Não sei o que disse ao certo, mas senti aquele desejo imediatamente, o de ficar descalça. De sentir a vida em sua essência, com a forte sensação de que, de alguma forma, estava tudo bem.

De alguma maneira... Tudo estava no seu devido lugar.

14:34

alcança a tua própria mão e vê
frente e verso
um retrato ilógico das horas na pele
as linhas caminham e cruzam-se
interrogando-se incessantemente
"para onde devo ir?"
tontas, desenham no corpo
a firme certeza de que,
sempre e agora,
tudo passa
o tempo todo

nota

14:32

ao nascer, a morte e vida iniciam o mesmo percurso em nós, porém em caminhos simetricamente opostos. enquanto uma vem, a outra vai.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.