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Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

dia desses
pensei assim, recostada
(não que pudesse estar tocando aquela música do cazuza
mas estava)
pensei que se
TALVEZ
fosse sua mão a minha
seus olhos os meus
(não carece a repetição
quase nunca carece
mas é assim que faço
quase sempre)
fosse sua veia a minha
e o seu jeito o meu
é certo que veria o que vejo daqui

seus olhos tristes
sua alma cansada
seu corpo cheio de vida e juventude
o coração aflito
o abraço manso
o riso perene
...
(não que precisasse tocar aquela música do lenine
mas tocava)
e é assim, querida, como eu te vejo
paisagem serena
rio correndo sem pressa
cheiro de orvalho misturado com fruta fresca
que desata o medo que a cidade traz

é assim que te vejo, meu bem
e sigo vendo dia após dia daqui de onde estou
daqui
da outra ponta
daqui
do outro lado do espelho
Fazia tempo que não se viam. Quando uma não estava chorosa pela garganta inflamada, a outra sofria da ausência de carinho numa noite de gripe alérgica intensa. "Quando nos vemos?", perguntou uma. "Quando quiser", respondeu a outra. Chegou o sábado e Uma se preparou para Outra. Ônibus, metrô, trem. Finalmente, chegou ao litoral do litoral.

Outra se arrumava não muito meticulosa para o que quer que fossem fazer naquele fim de semana sem doenças respiratórias. Uma só queria usar de novo seu batom vermelho. Era um rito de empoderamento. Ela e esse tal do batom vermelho. Ela se olhava no espelho e repetia algumas vezes elogios a si mesma, a sua índole, a sua beleza, ao seu intelecto, até se amar completamente.

Quando Outra virou a chave de casa, e as ruas esperavam ansiosas pelo que viria a acontecer, Uma disse: "Se Deus decidir ser bom comigo, algum empresário vai aparecer pra me pagar bebidas". Outra riu. Riu, porque além de Uma ser realmente engraçada, esse era o tipo de coisa que vivia lhe ocorrendo sem que fizesse pedidos a deus.

À meia noite, o samba ecoava na voz de todo povo e de Uma que sambava aparentemente feliz. Outra estava cansada e, sentada, observava de longe Uma tentando se divertir. Uma gritou, cantando: "Viveeeeer e não ter a vergonha de ser feliiiiz". E sambava. Não havia sinal de qualquer empresário interessado em bancar Uma e seu batom vermelho. E, à essa altura, não havia qualquer sinal de que isso fosse mesmo necessário.

Uma fechou os olhos sem deixar de sambar. Cantava, parecia ainda mais feliz. Outra estava lá ainda, com sua longneck, quando viu lágrimas descendo e contornando o sorriso fraco da amiga que seguia rindo, sambando e cantando que a vida "é bonita e é bonita".
tem uma coisa sobre a minha cabeça
perto do pescoço e da nuca
que me transfere o peso de 200 mil anos
todas as guerras estão sobre mim
todos as mortes estão sobre mim
todos os medos estão sobre mim

tem uma coisa sobre a minha cabeça
caminham os ladrões, os coléricos
os reis, os bispos
os padres, os maridos
a foice e o martelo
o dinheiro, a indústria
andam todos sobre os meus ombros
todos nascidos do meu próprio ventre
de um lado a outro, andam
gritando seus desejos insanos
matando-me pouco a pouco

tem uma coisa sobre a minha cabeça
que tem o tempo da humanidade
que me cala quando quero dizer
e me açoita quando penso em tentar
e me rouba quando penso em querer
e me mata quando quero gritar

tem uma coisa sobre a minha cabeça
e doi sempre que penso, tento, grito e quero
por quanto tempo mais - pergunto-me há seculos
- ela ficará lá?
"Às vezes, a gente se perde, sabe?". Ele me disse como se eu não soubesse disso. Os anos que eu tinha a mais me davam certa vantagem, mas, quando esse sentimento de abandono invadia, a gente se olhava e ficava assim mesmo, sem resposta.

Lembrei de Alice que, sem saber para onde queria ir, ouviu do sábio gato as palavras que tem me servido de mantra desde a infância: "Sendo assim, qualquer caminho serve". De fato, o gato de Cheshire é muito mais sábio do que o Pequeno Príncipe, chatíssimo com suas lamúrias carentes.

Enfim, a coisa é que vi um monte de fios de cabelo pelo chão do banheiro e isso não me irritou nem um pouco. Deixei estar. Decidi ser compreensiva comigo mesma e, na ausência de qualquer outro para julgar, sentir a redenção. Mas, com ela, a dúvida. Perguntei ao gato: "Como faço para sair daqui?".

Como faço para deixar esse sentimento de abandono? Como faço para dar conta de ser independente, cuidar da casa e ainda bem resolvida emocionalmente com a vida, com os amores e com o passado? Ele, como era de seu feitio, me perguntou onde eu queria chegar com isso e eu disse que não sabia. Voltei à estaca zero. Qualquer caminho me serve, qualquer caminho sempre me serviu.

Certo. Senti saudades de outros caminhos, mas entendi o gato. Este é agora o meu caminho e há o que descobrir nele. Assim como Alice descobriu.

Notei a comida estragada na geladeira, o lixo a ser retirado e o calendário. Dei asas ao tempo e me pendurei sobre o passado por alguns instantes. A menina de 12 anos que eu era jamais pensaria em estar aqui, exatamente agora. Muito menos a mulher de um ano atrás. A de 12 pensava em esquecer o primeiro amor. A ferida ardida que doeu meses a fio.

"Besteira", dizia a mulher de um ano atrás.

E eu fico aqui tentando entender o que temos em comum. Eu, a de um ano atrás e a menina. Acho que é isso. Alguns anos nos separam, desejos e lugares nos diferenciam, mas continuo perguntando ao gato: "Como faço para sair daqui?".
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Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
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