Desde que você se foi, tudo mudou. Estranho dizer isso, porque sempre falei que a morte é só mais um passo, nada mais. E pra você foi, certamente. Eu é que fiquei. Primeiro eu morri um pouco junto. A dor tomou completamente a minha carne que costumava ser toda carnaval. Eu chorei, mas isso foi o mínimo. Impossível não sofrer com a sua ida. Acho que por isso resolvi ir também. Fui embora querendo ficar, mas só ficaria se você voltasse. Então fui. Depois, eu senti. Você, indo, me lembrou que o corpo é a única coisa que eu tenho, mas que também não é nada demais. Nada demais, como tudo. Fragile. Então o pouco que me restou de sagrado se desfez. Coloquei meu corpo no mundo, não como quem finge. Eu realmente estava lá (ainda estou). Queria sentir qualquer coisa que não fosse saudade. Você teria se orgulhado de tudo o que a pele me fez sentir quando estava lá. E riríamos juntos da minha audácia. Mais tarde tive medo. Medo de que não sentisse mais nada que não fosse o que a pele me dava. Então decidi amar qualquer pessoa que me aparecesse. Mas não é a mesma coisa, você sabe. Você me entenderia e ficaríamos contemplando a existência enquanto nos perguntaríamos o que é o amor. Amei amores tão vazios que secaram rápido. Quis me abrigar em qualquer canto e tem sido assim desde então. Não encontrei lugar como o que havia em você. E sei que não encontrarei. Por isso, volta e meia choro. Ficar dói mais do que partir, nesse caso.
eu sou pouco
nunca serei muito
é que me apego nesse meu tamanho
coisa miúda que sou
sambo baixo pra não atrapalhar
tenho medo de entrar onde não me é familiar
bi-cho do ma-to, mas nem sempre
há certa força na minha pequeneza sim
mas também é pouca
admito sem medo
até porque quem vai ouvir?
eu, só, sou quase nada
carrego comigo a certeza de ser assim
um pouquinho de nada
partícula leve de poeira
pedaço de brisa
que volta e meia
faz a fruta cair do galho
nunca serei muito
é que me apego nesse meu tamanho
coisa miúda que sou
sambo baixo pra não atrapalhar
tenho medo de entrar onde não me é familiar
bi-cho do ma-to, mas nem sempre
há certa força na minha pequeneza sim
mas também é pouca
admito sem medo
até porque quem vai ouvir?
eu, só, sou quase nada
carrego comigo a certeza de ser assim
um pouquinho de nada
partícula leve de poeira
pedaço de brisa
que volta e meia
faz a fruta cair do galho
Não é como se eu soubesse sempre sobre o que digo, mas, sim, estou sempre dizendo. Só que nem sempre digo com palavras - essas com as quais adoro brincar e você também. Às vezes digo de outro jeito, às vezes digo com o corpo mesmo. Talvez, não sei bem, mas talvez o faça assim dessa maneira muito mais do que com as letras. Linguagem, você diz. Ah, linguagem é isto: corpo, a corporeidade das coisas que calhou certa vez serem esses símbolos todos juntos. E é sempre uma relação a dois, sabe? Digo "a dois" só como metáfora na verdade, digo para que entenda que não é coisa de um só. Linguagem é sair da solidão e queira você ou não é o que acabamos fazendo com esses pixels todos que invadem a tela, a palma da mão. Enfim... Volta e meia a gente faz isso mesmo. A gente diz, mesmo sem querer dizer.
quem você pensa que é
pra vir aqui e cortar meu gozo,
homem?
podar meu prazer
ao seu bel-prazer
sinto muito
e sinto com o corpo todo
não é só com o coração não
como você julga
ou se engana ao acreditar
a mãe das mães também fode, oras
eu sinto na pele mesmo
arrepio
desejo marcado no olho, na íris
boca, peito, clitóris
é que meu corpo é meu
não tenho nada
só tenho esse corpo que deus me deu
desse jeito que ele é
em eterna mutação
que sente, sofre e goza
mesmo quando você nega
ou esquece de se lembrar
pra vir aqui e cortar meu gozo,
homem?
podar meu prazer
ao seu bel-prazer
sinto muito
e sinto com o corpo todo
não é só com o coração não
como você julga
ou se engana ao acreditar
a mãe das mães também fode, oras
eu sinto na pele mesmo
arrepio
desejo marcado no olho, na íris
boca, peito, clitóris
é que meu corpo é meu
não tenho nada
só tenho esse corpo que deus me deu
desse jeito que ele é
em eterna mutação
que sente, sofre e goza
mesmo quando você nega
ou esquece de se lembrar
