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Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

você derrama em mim o seu transbordar
sem saber que aqui não tem espaço
pro que não seja eu

não me caibo onde não há lugar

não que eu queira ser só
não que eu queira andar assim, a esmo
na estrada que deus me deu
mas é que quero a água que te falta
e não a que te sobra
quero o que tem aí de mais bonito
não o que quer jogar fora

fico melhor sem o seu lixo

só assim, meu bem...
só assim pra que o que vem daí
possa ser com o tempo
também eu
"Sabe quem nunca bambeia? Nunca se contradiz ou volta atrás?". Ele me perguntou com um ar cansado. Parecia um pouco chateado por perceber que, mais uma vez, precisava retroceder e se desculpar, enquanto via sua vida empoeirar depressa. Eu já não tinha muita paciência pra seus deslizes, tampouco tinha para ouvir suas filosofias roubadas de filmes antigos. Mas por alguma razão eu sabia que estar ali era uma forma de conseguir de uma vez por todas me libertar. 

"A morte", respondeu. Eu ri. Suas rugas e manchas na testa me lembravam do tempo com T maiúsculo e me faziam pensar em tudo o que ele já havia feito. Das chances que teve de não errar e errou. Das vezes em que insistiu em destruir outras vidas tentando dar um sentido menos medíocre pra sua própria vida. Ri, porque sabia que ele não contava com o peso das escolhas. Ninguém nunca lhe disse que a vida cobrava, então cresceu achando que o que fazia era a lei. 

Olhei longe e fiquei. A verdade é que somos pura reação. Essa é a lei. Em vez de florear a história com slogans indecentes que mandam fazer o bem, prefiro lembrar da responsabilidade. Talvez a melhor religião seria uma que tivesse um slogan sincero. Cheguei a esboçar um dia desses e era algo como: "faça o que fizer, lembre-se: você fez". Enquanto fervia em pensamentos, ele ficava repetindo frases, desculpando-se por coisas que eu já não me dedicava a pensar havia anos. 

Voltei a olhar suas rugas e notei que um silêncio pousara sobre nós. Ele queria uma resposta, um perdão que - eu sabia, mas ele não - só ele poderia conceder a si mesmo. Sorri breve e disse minutos antes de fingir uma ligação urgente e ir embora: "Todo menino é um rei, pai. Tá tudo bem".
eu queria que você desatasse o nó da minha garganta com a língua. ainda que fosse com a sua língua nativa. materna. e me contasse suas lendas, histórias ancestrais de um território-corpo cheio de desejos: o seu. e se derramasse feito queda d'água no meu peito pra que meu choro corresse em fluxo, desenhando os limites dessa ilha inabitada - que, por enquanto, somos nós.
Ontem choveu e me peguei lembrando do seu olhar. Não é nada, é só que a chuva me deixa assim, saudosa, nostálgica. Quando te vi pela primeira vez fiquei apavorada. Talvez eu queria que me visse assim, assustada, como se não soubesse o que estava fazendo. Mas sabia. Você também sabia. Tanto que não demorei a decifrar esse seu olhar. Minhas mãos trêmulas nada eram perto da profundidade que havia nos seus olhos. Deu um sorriso pra disfarçar.

É aquela sensação de vertigem. Como se não soubéssemos conceber completamente todas as razões que nos colocaram no alto daquele cume, daquela relação. Mas lá estávamos. Desejosos, pulsando pele e sentimento, tesão e pavor, amor enfim. Confesso que te amei por alguns dias. Acredito que foi a pessoa que amei por menos tempo, mas não sei medir intensidade. Nunca saberei. Só sei que amei.

Seu olhar me tocava. Sua mão me tocava. Sua fala ora rápida e desajustada, ora vagarosa e reticente, me tocava. Ainda toca, quando deixo a memória do ontem se fazer hoje. Quando me permito ver o tempo como um. Como ele é, de fato.

Ah, bem, cansei de medir amores pela duração que eles tiveram. Jamais os mediria por intensidade. Então, simplesmente não meço. Só me permito viver suas loucuras a medida em que me eles interpelam. E me acabo de saudade quando os vejo ir. Tardou, mas aprendi. Há uma força quase raivosa que provoca os encontros e os desencontros. Não cabe a mim, jamais caberá, impedi-la. Por isso, guardo a saudade em mim, bem fundo, para que quando chover eu tenha do que lembrar.
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Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
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