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Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

Eu andei pensando sobre as primeiras vezes. É que abri meu livro de listas e, lá, como se fosse um tapa de luvas, havia uma lista de primeiras vezes me convidando a falar de mim. Tinha o primeiro beijo. Lembro bem como e quando, porque foi num show do Dead Fish e depois eu me apaixonei desastrosamente. Coisa de quem não conhece bem a vida. O primeiro vício que, peço a deus, sejam os livros. O primeiro carro, a primeira religião. E depois um monte de "primeiro(a)" com espaços vazios para que eu mesma entrasse na minha própria cabeça oca e definisse quais primeiras vezes me foram importantes e nossa...

Coloquei lá o primeiro emprego, o primeiro namorado e parei. Não há tantos espaços vazios assim e eu só tenho 26 anos pra agarrar cegamente e sem dor a certeza de que me foram encerradas as oportunidades de viver algumas mais primeiras vezes. Me nego a crer. Lembro que em 2015, em Curitiba, vivi primeiras vezes quase imorais. Dividir um apartamento, morar por um mês numa pensão, chorar quando um recém-conhecido me cantava Tim Maia, um biscoito batizado, um casal querido que me tomou pela mão e quase que me toma pelo coração com aqueles cafés da manhã divinos...

2013 também me permitiu essa dádiva. Amores mal amados, corações quebrados, festas, chão que dormi com litros de álcool na cabeça. Amores fortes que, mal sabia, permaneceriam. E permanecem. Dá, de repente, uma saudade estranha, atípica. E um medo também.

Essa coisa que a gente vai pegando jeito de fugir das primeiras vezes. Essa mania de preferir o que já é previsível e depois chorar noites reclamando da chatice, do tédio, do "já vi tudo isso acontecer", já li esse livro... E, de repente, numa noite chata, numa terça-feira qualquer, em que o trabalho tá atrasado, mas você já fez o que podia ter feito, e a família insiste em derramar seus dramas em você como se o próprio Jesus lhe houvesse iluminado a ideias... Nesse dia comum como qualquer outro, você sente uma saudade incomum. E gosta de repetir que é saudade do que não viveu. Besteira! É poesia só e poesia, a gente bem sabe, é meio inútil.

Só dá pra sentir saudade do que viveu, oras, e sobre isso estou bem certa haha É saudade de conhecer o novo, de se deslumbrar nos inícios tão curiosos que nos fazem ficar acordados à noite pensando "como?", que nos deixam vermelhos quando dizem o que não esperávamos, saudade de um sentimento gostoso como se sentir querido tipo na barriga da mãe. Saudade de ver o interfone tocar e ser alguém inesperado. Saudade de experimentar alguma coisa, qualquer coisa, pela primeira vez...

Esses dias me deu saudade de conhecer um monte de gente que já me é amor de novo. De ler de novo Clube da Luta como se eu não soubesse a coisa do Tyler com o Jack, sabe? Saudade da surpresa que é não saber o que vai acontecer. E não é como se a gente soubesse de alguma coisa, mas tem uma sensação que fica, depois de anos vendo a coisa acontecer, e que coloca na'gente essa ideia de saber o que será, sem muitas chances de se surpreender. 

Enfim, esses dias me deu saudade. 
E olha que nem tava chovendo...
sei que apesar de mansa
é vazia a tua fala
o saber, porém, não me para
e me abro a ti feito queda d'água

coleciono tuas palavras
como se elas fossem pequenos peixinhos
que me passam nos pés e fazem cócegas
chego a quase sufocar de tanto que nado

uma pausa pro respiro e: ah!
como é bom mergulhar
na ilusão que é a correnteza desse nosso amor
você derrama em mim o seu transbordar
sem saber que aqui não tem espaço
pro que não seja eu

não me caibo onde não há lugar

não que eu queira ser só
não que eu queira andar assim, a esmo
na estrada que deus me deu
mas é que quero a água que te falta
e não a que te sobra
quero o que tem aí de mais bonito
não o que quer jogar fora

fico melhor sem o seu lixo

só assim, meu bem...
só assim pra que o que vem daí
possa ser com o tempo
também eu
"Sabe quem nunca bambeia? Nunca se contradiz ou volta atrás?". Ele me perguntou com um ar cansado. Parecia um pouco chateado por perceber que, mais uma vez, precisava retroceder e se desculpar, enquanto via sua vida empoeirar depressa. Eu já não tinha muita paciência pra seus deslizes, tampouco tinha para ouvir suas filosofias roubadas de filmes antigos. Mas por alguma razão eu sabia que estar ali era uma forma de conseguir de uma vez por todas me libertar. 

"A morte", respondeu. Eu ri. Suas rugas e manchas na testa me lembravam do tempo com T maiúsculo e me faziam pensar em tudo o que ele já havia feito. Das chances que teve de não errar e errou. Das vezes em que insistiu em destruir outras vidas tentando dar um sentido menos medíocre pra sua própria vida. Ri, porque sabia que ele não contava com o peso das escolhas. Ninguém nunca lhe disse que a vida cobrava, então cresceu achando que o que fazia era a lei. 

Olhei longe e fiquei. A verdade é que somos pura reação. Essa é a lei. Em vez de florear a história com slogans indecentes que mandam fazer o bem, prefiro lembrar da responsabilidade. Talvez a melhor religião seria uma que tivesse um slogan sincero. Cheguei a esboçar um dia desses e era algo como: "faça o que fizer, lembre-se: você fez". Enquanto fervia em pensamentos, ele ficava repetindo frases, desculpando-se por coisas que eu já não me dedicava a pensar havia anos. 

Voltei a olhar suas rugas e notei que um silêncio pousara sobre nós. Ele queria uma resposta, um perdão que - eu sabia, mas ele não - só ele poderia conceder a si mesmo. Sorri breve e disse minutos antes de fingir uma ligação urgente e ir embora: "Todo menino é um rei, pai. Tá tudo bem".
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Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
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