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Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

eu tomei um remédio pra dormir
e dormi pensando em você
acordei com o som da sua voz
mas era ainda sonho
eu tomei um café mal passado
e tive asia enquanto estava ao seu lado
vomitei três dias depois
mas ainda era sonho
eu acho que você me lê feito um desafio
como se buscasse a palavra certa
como se eu fosse um prêmio de consolo
que só você pudesse ver
deve ser bom ter alguém que fala as coisas que eu falo
que abre o peito feito casa
dá comida e roupa lavada
- mas eu falo como sonho, sabe? -
deve ser bom enfim
ser desejado sem precisar se doar
sem ter que desejar igual e receber igual
só saber que há um desejo
fogo que só se sente o calor (nem arde nem doi)
mas é que eu quero queimar esse sonho
eu quero fazer um café perfeito
eu quero dar um show
te dar um tapa
entrar no ônibus errado com você
e a gente transar no alto daquele palácio
eu quero matar o seu desejo fraco
queimado
e enterrar as cinzas junto ao meu
eu me peguei pensando hoje
achando no fundo (no fundo) que tudo o que você faz
é pra ver se eu escrevo um poema pra você
taí
Depois de burra veia, vim notar o quão sexualizada fui na minha puberdade/adolescência. Eu mesma não sabia bem os limites. Já me achava adulta, porque a vida às vezes empurra a gente pra esse lugar. Especialmente se você é menina. Meu primeiro beijo foi aos 12 anos com um homem 10 anos mais velho por quem me apaixonei profundamente, como a criança que era. Eu era sempre diferente. Era inteligente pra minha idade. Ouvia muito esse tipo de coisa e gostava. Satisfazia um ego e um desejo de não ser burra e louca como todos achavam que crianças e adolescentes eram. Talvez por isso mesmo hoje eu dê tanto valor pro que pessoas dessa idade pensam... 

"Não é a mesma coisa... Conversar com você e conversar com as meninas da minha idade". Ouvi isso de mais de um, mais de dois homens, em diferentes idades. A conversa padrão se repetiu entre meus 12 e 16 anos. É o tipo de coisa que conquista qualquer garota. "Você, hein? Você é mesmo surpreendente". Quando falava coisas que, pra eles, eram óbvias. Depois dos 18, isso começou a parar de acontecer e, depois dos 21, era o fim da Isabella diferente. E olha que hoje em dia me considero ainda mais diferente e sagaz do que aos 13.

Esses dias estive pensando nisso tudo e em como é difícil manter relações amorosas e em tudo. E, bom, se eu era minimamente inteligente com 12, 14, 17 anos, hoje em dia eu o sou ainda mais, oras. E nem é essa palavra mesmo porque inteligente todo mundo é. inteligência é uma faculdade que a gente exerce, cada um à sua medida. Não é pra me gabar, mas já me gabando, eu gosto mesmo é de fazer conexões, o maior número delas - apesar de ter um cérebro pequenininho. E acho que é isso que "imprime" inteligência pras pessoas.

Então, o que mudou de fato de lá pra cá? Por que não ouço mais esse tipo de coisa? Muita coisa. Mas, em especial, o corpo. O corpo franzino de uma menina, magricela, inocente, desesperada por cuidado, vulnerável. Hoje o corpo é outro. Mais livre, com pelos, celulites e mais velho, mais vivido. Um corpo de mulher com cabeça de mulher. É triste ver que é tudo muito naturalizado. Esse fetiche, esse apego pelo corpo infantil, franzino. Um corpo que facilita a dominação, um corpo que nunca vai questionar a relação de poder estabelecida naquele impossível namoro.

Pior ainda é lembrar que desses homens todos com quem me relacionei ainda criança, a maioria me deixava quando estava no auge do meu sentimento. Quando percebiam que eu não iria deixar que me erotizassem tanto, que o que eu queria mesmo era afeto - que não tinha em casa. Aí iam-se com a desculpa mais verdadeira de todas: "temos perspectivas diferentes". 

E daí percebo que essas preferências se repetem. Os corpos adultos de aparência infantil são fetichizados. Os corpos corpos, corpos com marcas fortes do tempo, são deixados em segundo plano. Acho que é isso que queria dizer, enfim. De qualquer forma, sou diferente mesmo, sempre fui, mas hoje não preciso que nenhum homem 10 anos mais velho me diga isso :)
Eu andei pensando sobre as primeiras vezes. É que abri meu livro de listas e, lá, como se fosse um tapa de luvas, havia uma lista de primeiras vezes me convidando a falar de mim. Tinha o primeiro beijo. Lembro bem como e quando, porque foi num show do Dead Fish e depois eu me apaixonei desastrosamente. Coisa de quem não conhece bem a vida. O primeiro vício que, peço a deus, sejam os livros. O primeiro carro, a primeira religião. E depois um monte de "primeiro(a)" com espaços vazios para que eu mesma entrasse na minha própria cabeça oca e definisse quais primeiras vezes me foram importantes e nossa...

Coloquei lá o primeiro emprego, o primeiro namorado e parei. Não há tantos espaços vazios assim e eu só tenho 26 anos pra agarrar cegamente e sem dor a certeza de que me foram encerradas as oportunidades de viver algumas mais primeiras vezes. Me nego a crer. Lembro que em 2015, em Curitiba, vivi primeiras vezes quase imorais. Dividir um apartamento, morar por um mês numa pensão, chorar quando um recém-conhecido me cantava Tim Maia, um biscoito batizado, um casal querido que me tomou pela mão e quase que me toma pelo coração com aqueles cafés da manhã divinos...

2013 também me permitiu essa dádiva. Amores mal amados, corações quebrados, festas, chão que dormi com litros de álcool na cabeça. Amores fortes que, mal sabia, permaneceriam. E permanecem. Dá, de repente, uma saudade estranha, atípica. E um medo também.

Essa coisa que a gente vai pegando jeito de fugir das primeiras vezes. Essa mania de preferir o que já é previsível e depois chorar noites reclamando da chatice, do tédio, do "já vi tudo isso acontecer", já li esse livro... E, de repente, numa noite chata, numa terça-feira qualquer, em que o trabalho tá atrasado, mas você já fez o que podia ter feito, e a família insiste em derramar seus dramas em você como se o próprio Jesus lhe houvesse iluminado a ideias... Nesse dia comum como qualquer outro, você sente uma saudade incomum. E gosta de repetir que é saudade do que não viveu. Besteira! É poesia só e poesia, a gente bem sabe, é meio inútil.

Só dá pra sentir saudade do que viveu, oras, e sobre isso estou bem certa haha É saudade de conhecer o novo, de se deslumbrar nos inícios tão curiosos que nos fazem ficar acordados à noite pensando "como?", que nos deixam vermelhos quando dizem o que não esperávamos, saudade de um sentimento gostoso como se sentir querido tipo na barriga da mãe. Saudade de ver o interfone tocar e ser alguém inesperado. Saudade de experimentar alguma coisa, qualquer coisa, pela primeira vez...

Esses dias me deu saudade de conhecer um monte de gente que já me é amor de novo. De ler de novo Clube da Luta como se eu não soubesse a coisa do Tyler com o Jack, sabe? Saudade da surpresa que é não saber o que vai acontecer. E não é como se a gente soubesse de alguma coisa, mas tem uma sensação que fica, depois de anos vendo a coisa acontecer, e que coloca na'gente essa ideia de saber o que será, sem muitas chances de se surpreender. 

Enfim, esses dias me deu saudade. 
E olha que nem tava chovendo...
sei que apesar de mansa
é vazia a tua fala
o saber, porém, não me para
e me abro a ti feito queda d'água

coleciono tuas palavras
como se elas fossem pequenos peixinhos
que me passam nos pés e fazem cócegas
chego a quase sufocar de tanto que nado

uma pausa pro respiro e: ah!
como é bom mergulhar
na ilusão que é a correnteza desse nosso amor
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Sobre mim

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Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
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