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Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

eu sabia que seria a última vez, mas não quis que você soubesse. quis que você pensasse por um segundo que tinha ganhado, me ganhado. e aí eu me dei o privilégio de aproveitar até o último minuto, enquanto você aproveitou só o primeiro. você não terá o último minuto disso tudo. isso, sim, eu te neguei. eu quero que você perceba lenta e dolorosamente que eu não vou parar a minha vida por essa sua brincadeira. minha vida não parou nem naquele dia que eu pedi aos céus que parasse. você não é nem de longe a droga mais forte que já usei. é, talvez, uma das mais fracas e inconsistentes. eu, sim, sou uma droga pesada, forte, alucinógena, transcendental. eu sei disso não só porque aquele dia você me disse, mas eu sei porque eu sei o efeito que eu causo em pessoas como você. é difícil lidar com esse seu complexo de deus diante de uma verdadeira deusa. é difícil aceitar a sua limitação e humanidade diante de uma mulher grandiosa. e então você tenta fingir que não me ama, que não me admira, que não baba enquanto eu falo, ando, mexo, danço, transo. você finge que não é comigo que consegue dizer tudo o que nunca conseguiu dizer pra ninguém. eu sei. esse é o meu poder. as pessoas não falam com ninguém, mas comigo falam. meu encanto é esse. sereia que sou. deusa que sou. e ainda, benevolente que sei que posso ser, te deixo um conselho: respeite a minha divindade, porque os céus não perdoam quem uma deusa ultraja.
amigo,

eu queria te encontrar em casa e quase fui no último sábado. agora penso na saudade que eu sinto e, na verdade, não quero que ninguém sinta o mesmo. esse é o meu fardo e eu o carrego com muito amor a você. sei que você está em casa. e sei que um dia eu vou voltar pra casa também. mas ainda não chegou esse dia. eu vou ter que esperar pra te ver sorrir de novo.

com amor,
isa.
Sempre pensei que fosse o tempo o meu espinho na carne. Sempre pensei que o maior problema era não saber ler relógio. Era me perder nos ponteiros e estar sempre atrasada. A desconexão com o tempo regulamentar é parte do problema, talvez metade dele. "Problema?", me perguntaria Nélia, minha psicóloga. 

Metade porque, agora percebo, o espaço também me atiça como um espinho na carne. A geografia das coisas. O estar, eu mesma, em um pedaço de terra, de chão, e ali me reconhecer, me sentir pertencente. Bobeira foi pensar em separar tempo e espaço, mas não é culpa minha se foi assim que me ensinaram desde que nasci. "Tempo é isto, espaço, aquilo", etc. 

São poucos os momentos - dos que consigo lembrar, vale dizer - em que me senti no lugar certo. Mas foram diversas as vezes em que, nesses poucos meses de terapia, disse algo como "estou deslocada, desconectada". Meu desejo, quase sempre, me faz querer outro lugar. Rio, São Paulo, Ouro Preto, Curitiba, Manaus, Argentina, e até Paris, Irlanda. Vitória, a cidade que me recebeu, filha revolta do próprio Espírito Santo, sempre emergia em mim como repositório. Lugar dos registros, das experiências, dos medos e das esperanças, mas não meu.

Talvez o erro comum seja querer um pedaço de lugar pra chamar de nosso. Nos últimos dias, o que mais fiz foi andar, andar e andar. O fôlego que não dava por conta da altitude me fez perceber o óbvio. Não tenho nada, além do corpo que deus me deu.  Isso por si só não é muito, porque esse corpo não se sustenta. É preciso ar, oxigênio, água, comida. Tudo isso é o lugar, o espaço, o território e, mais especificamente, a terra quem me dá.

Das andanças que a Bolívia me permitiu, senti no meu profundo, ontem mesmo, observando o céu limpo e estrelado de Copacabana (ou kota kahuana, como chamava o povo Aimará antes dos colonizadores espanhóis chegarem); senti que sou filha da Terra, com T maiúsculo. Pachamama, Gaia - ou qualquer que seja o nome que demos - é quem me tem. É ela quem me protege. É ela quem, se quiser, me leva desse plano, deste tempespaço. 

Não há porque querer me sentir pertencente, quando na verdade a difícil tarefa é aceitar me ver pertencida. A difícil missão de reverenciar e saber que não tenho nada, mas sou tida, gerada. A missão é aceitar os fluxos que me levam e, com eles, fazer jus à existência que me é concedida como benção. Entender que posso e não posso - sim, nesta exata contradição. 

Entendi isso antes de ontem, antes mesmo de ver os resquícios incas em território boliviano. "Antes", porque o tempo é um só. E sei que chorei, chorei madrugada adentro sem entender muito a insatisfação, o medo. Quando vi o lago Titicaca e o por-do-sol que descia sobre Copacabana, ao retornar, entendi e pedi à Pachamama, do fundo do meu coração, um pouco de energia para viver.
Não há um abismo em mim e você
há um rio
que, antes córrego, faz navegar ideias mil
Não há um fosso entre mim em você
há caminho, estrada a percorrer
Brotando canteiros mil
Não há o vácuo entre mim e você
há o espaço
lugar de andanças dessas ondas mil
sonoras ou não
Entre mim e você,
possibilidades grandiosas
de, na diferença,
sermos eternos
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Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
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