facebook twitter instagram
  • Home
  • Sobre mim
  • Meus livros
  • Clipping
  • Downloads
  • Fale comigo

Cortes Lentos

Este blog reúne o trabalho literário da escritora capixaba-carioca Isabella Mariano.

ela adora chegar quando não é convidada

apenas aparece e se instala

às vezes, ouço seus gritos de longe

seu andar pesado

sua respiração ofegante

o coração acelerado

e o peso na cama à noite

mas, às vezes, ela vem soturna

quando estou feliz na mesa do bar

no parque

no banheiro

lendo um livro

no cinema

ela chega sem aviso ou convite

essas são suas piores visitas

ela me reconhece 

e eu me desconheço

a dormência dos meus lábios

e as pálpebras que pesam uma tonelada

o silêncio parece ser seu único amigo

- mas ele é meu amigo também -

de longe, porém, ouço um sussurro

que saiu do bico de um pássaro preto

há milhares de anos atrás

chega a mim feito uma brisa e ordena

ele me manda voar, ele diz:

voa, voa, voa, que isso também há de passar

eu tenho o costume de usar as palavras erradas. não digo como um costume de fazer caminhadas ou tomar café preto todo dia logo cedo. digo costume, de costumeiro, de ser comum, frequente, sabe? - penso se é a palavra certa. - não são raras as vezes em que sinto que preciso me explicar. dizer que não foi exatamente aquilo o que eu quis dizer, mas que eu, de alguma forma, disse. logo eu, que sempre quis ser conhecida pelo dom com as palavras. 

já faz um tempo que a palavra não tem dado mais conta de mim. o que eu tenho a dizer muitas vezes extrapola os limites da linguagem que sei. aí vou dizer que é magia, oração, mas nem é pra tanto. quanto mais próxima estou do que eu quero dizer, menos sei as palavras certas para dizê-lo. tem vezes que não entendo simples construções frasais. sujeito, verbo, predicado. e faço perguntas estúpidas como uma criança que mal conhece o mundo, ainda. confesso certo prazer em dizer que não entendi.

há momentos, porém, em que uma metáfora dá mais conta da minha realidade do que um objetivo retruque ao seu cínico "ei, tudo bem?". me desculpo pelas palavras demais. me desculpo pelas palavras de menos. me culpo por falar e por não falar. e foi nesse caminho que comecei a perceber a limitação da palavra. 

palavra é como um invólucro, um patuá. palavra é amuleto. acho que eu já disso isso outrora. ou outro alguém disse. que diferença faz? palavra expande, enquanto limita. palavra engrandece, enquanto diminui. é a limitação da forma. e a limitação da forma é justamente meu tropeço. é onde eu vejo que nem sempre terá palavra pra tudo e me perco nas significâncias todas, tentando dizer que te amo, que não te quero mais, que te quero perto mas nem tanto, não percisa me tocar hoje, ah mas hoje eu vou te comer, não, sim, talvez, é, desculpa, perdão, bom dia, preciso de ajuda, não preciso mais. 

é tanta coisa pra dizer toda hora que cansa. quero é observar por cima da palavra, no ombro da palavra, sabe? acessar o que você quis dizer, em vez do que exatamente disse. chame de discurso, de alma, de intenção. tanto faz a palavra. quero ver onde é que elas se formam em você. "além do nome", disse adélia. quero ver o que está além das suas vírgulas todas, seu abismo me interessa mais do que as desculpas que você dá para que ninguém possa entrar...

você me pergunta como estou. penso em dizer que estou por um triz, um triz que me conecta ao centro da terra. fótons, prótons e eletróns agitados me equilibram e me reorganizam continuamente, enquanto a gravidade me puxa pr'aqui e pr'ali. penso em dizer que fiquei triste quando soube do uso de mão de obra escrava em países da áfrica para extração de cristais. penso sobre o desequilíbrio ambiental e o super aquecimento da terra. penso no inevitável fim. penso na entropia que, de repente, se mostra como um processo que, sob determinadas circunstâncias, pode ser revertido. será que o fim é tão inevitável assim, então? 

penso sobre como preciso me explicar o tempo inteiro. e sobre como me sinto cansada. viver é uma maratona e sinto que mal aprendi a andar. às vezes, parece que desaprendo até a respirar. puxo o ar com força, lembrando de que, para existir, é preciso suspirar uma boa dose de oxigênio. penso em te dizer que tenho medo de perceber que nunca fui amada e, por isso, sobre esse assunto, não penso tanto assim. 

de vez em quando, porém, imploro por atenção e me sinto aquela criança abandonada na escola, cuja mãe esqueceu de buscar, porque o álcool já lhe havia feito esquecer das horas. sempre e de novo, retorno a ela, na tentativa de que, algum dia, ela já não espere mais. na tentativa de que, algum dia, ela possa ir embora sozinha. 

aliás, eu estou indo embora sozinha. enquanto penso em tudo isso, percebo que não preciso mais esperar que alguém me dê a mão para atravessar a rua. eu posso atravessar sozinha. lembro do dia que soltei a mão da babá e quase fui atraopelada. meu ímpeto pela independência nem sempre foi consciente, muito menos responsável. agora, não. 

agora eu posso te dizer como estou. 

estou viva. é só o que posso lhe garantir. estou viva, porque sinto, porque morro de medo, porque ainda não aprendi dizer adeus ou mesmo perder. estou viva, porque busco mais, busco me conectar, busco dar significado, busco não parar de viver. porque, meu bem, se eu parar. ah, se eu parar... 

faz um tempo que tenho sentido dificuldades em me conectar com as pessoas. isso é recado pra se conectar consigo mesmo, então. né? e aí vou gastando as horas me observando no espelho. vejo minhas curvas, meus sonhos. meus medos, meus cabelos. vejo a imagem toda, corpo e mente, ali como um mapa. 

fecho os olhos e me despeço da necessidade de estar sempre certa. é uma despedida diária e doi nos meus órgãos dizer adeus. abraço o erro. abraço as prerrogativas que tenho em mim e todos aqueles abandonos que me fazem companhia. sozinha sigo, é verdade, mas nunca sem ninguém para amar. 

porque o amor é a minha fogueira nessa selvagem floresta que é ser exatamente quem eu sou. o amor é o que me sustenta. por isso, afasto rápido pensamentos sabotadores e observo o amor da professora que me fez companhia em todo o meu momento de falta. observo o amor que vem de dentro (da Terra) que me conservou amável, mesmo depois de me faltar o amor que mais desejava. e na mão dela seguro. e com ela, prossigo. 

eis a tua resposta, portanto: estou viva, finalmente. podemos fazer contato.

não são raras as vezes em que a vida me põe de frente às coisas que acho que sou. e me nomeio como nomeio tudo quanto guardo em potes reutilizados aqui em casa. aceito cada rótulo para ver se me faço existência, ou talvez só para reivindicar a minha liberdade de existir como sou. 

sou mulher (sou?), bissexual, bruxa. depressiva (sempre fui?). sou poeta (será?). poder nomear cada pedaço do que sou me parece uma boa ideia quando quero me fazer ouvida. é como escrever um manifesto todos os dias. mas o que me dá forma também me limita. 

também não foram raras as vezes em que precisei provar cada rótulo que me circunda. provar para os outros, mas também para mim. por vezes me pergunto: a quem dou o poder de dizer o que sou? e quando o nego: a quem dou o poder de dizer o que não sou? quem é que pode dizer os meus limites se não eu mesma, quem habito com muita dor e amor esse corpo que a terra me deu? 

faz um tempo que me entendi e me observei feito uma paisagem e no horizonte do que sou vi mais do que é que pensei que seria: sou, acima de tudo, uma libertadora. toda e qualquer prisão me adoece. eu questiono minhas próprias certezas e, assim, faço com que você questione as suas também. e é tudo bem questionar. e é tudo bem se perceber preso. e é tudo bem se permitir viver de outra forma. 

me lembro dos dias em que ria jocosa da frase que estampava as biografias digitais: "quem se define se limita". mas todo clichê tem seu por quê. é difícil dizer do que sou quando nem mesmo eu sei do tanto que sou capaz. testar meus limites é minha forma de me descobrir, mas é também quando percebo que, sim, posso ser tanto, posso ser muito...

Posts recentes
Posts antigos

Me siga!

Sobre mim

Minha foto
Isabella Mariano
Isabella Mariano nasceu em 1992, no Rio de Janeiro, mas logo se mudou para Vitória. É jornalista, escritora, designer e mestre em Comunicação e Territorialidades. Em 2013, publicou o livro "gotas" e, em 2015, o "Cortes Lentos" - ambos de poemas.
Ver meu perfil completo

Outros projetos

  • Boas de Prosa
  • ZINE | Poemas para consolar corações isolados
  • Médium

Blog Archive

  • ▼  2024 (3)
    • ▼  maio (1)
      • às vezes, eu sinto falta do mundo pequeno. mas iss...
    • ►  abril (1)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2022 (4)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (2)
  • ►  2020 (10)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (1)
    • ►  setembro (1)
    • ►  julho (5)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2019 (4)
    • ►  julho (2)
    • ►  abril (1)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2018 (29)
    • ►  dezembro (3)
    • ►  novembro (1)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (2)
    • ►  junho (1)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (1)
    • ►  março (18)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2017 (21)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (3)
    • ►  outubro (2)
    • ►  setembro (3)
    • ►  agosto (1)
    • ►  junho (1)
    • ►  maio (6)
    • ►  abril (2)
    • ►  fevereiro (1)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2016 (18)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  outubro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (2)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  fevereiro (1)
    • ►  janeiro (5)
  • ►  2015 (41)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (8)
    • ►  outubro (5)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (4)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (2)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2014 (46)
    • ►  dezembro (7)
    • ►  novembro (6)
    • ►  outubro (2)
    • ►  setembro (5)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (5)
    • ►  maio (2)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (1)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2013 (28)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  outubro (3)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (10)
    • ►  maio (1)
    • ►  abril (4)
    • ►  março (2)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2012 (25)
    • ►  novembro (5)
    • ►  outubro (1)
    • ►  setembro (2)
    • ►  julho (2)
    • ►  abril (3)
    • ►  março (4)
    • ►  fevereiro (5)
    • ►  janeiro (3)
  • ►  2011 (71)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (3)
    • ►  outubro (12)
    • ►  agosto (2)
    • ►  julho (5)
    • ►  junho (4)
    • ►  maio (4)
    • ►  abril (2)
    • ►  março (15)
    • ►  fevereiro (16)
    • ►  janeiro (4)
  • ►  2010 (39)
    • ►  dezembro (11)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (2)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (3)
    • ►  julho (1)
    • ►  junho (6)
    • ►  maio (5)
    • ►  abril (1)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (3)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2009 (91)
    • ►  dezembro (9)
    • ►  novembro (9)
    • ►  outubro (7)
    • ►  setembro (3)
    • ►  agosto (4)
    • ►  julho (13)
    • ►  junho (3)
    • ►  maio (3)
    • ►  abril (8)
    • ►  março (11)
    • ►  fevereiro (10)
    • ►  janeiro (11)
  • ►  2008 (92)
    • ►  dezembro (7)
    • ►  novembro (5)
    • ►  outubro (10)
    • ►  setembro (19)
    • ►  agosto (14)
    • ►  julho (6)
    • ►  junho (5)
    • ►  maio (6)
    • ►  abril (12)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (1)
    • ►  janeiro (4)
  • ►  2007 (9)
    • ►  novembro (1)
    • ►  setembro (8)

Created with by BeautyTemplates | Distributed by blogger templates