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eu vi algumas coisas. eu vejo mais coisas quando sonho. infelizmente pouco me lembro. sei pouco sobre o que supostamente sei e menos do que deveria saber. é que me atento aos detalhes. depois esqueço de ver o resto.

li a palavra que me formou. uma palavra me criou e existo por ela. por conta dela e em dívida a ela. por coincidência palavra é feminino - isso se fosse possível falar em coincidência. mas no léxico, lá está a danada da coincidência. bonitinha, a bicha.

chamo as coisas pelos nomes que disseram que elas têm. mas vejo que parece abominável que se criem outras palavras. ou se riem da criança que mal sabe seu lugar no mundo. ou se riem de quem se desatentou às aulas de português. fora isso é poesia. eu escrevia despois porque a babá falava assim. eu achava que estava certo. e não estava? digo, por que não?

então vi que era abominável que se criassem outras palavras. "tá pensando que é deus?", eles nos dizem ainda hoje. eu rio pois somos sim. mas no feminino.

querem que o foi criado há milênios permaneça. eu acho engraçado. porque nada obedece ao que se quer. antes aceitássemos esse movimento eterno da palavra tanto quanto se aceita o eterno balançar do átomo. queria que o princípio da incerteza se aplicasse a tudo. mas o que seria de todas as gramáticas, né? o que seria do futuro dessas palavras que escrevo aqui?

por outro lado, daqui de onde vejo tudo se move, mas tudo se move de um jeito tão parecido... como se fosse a reação mais provável e única que se poderia haver. como se não houvesse outro jeito. a história tem disso, não tem? parece que os livros me dizem que não haveria de ser de outro jeito, porque, veja bem, já foi assim e é só assim que poderia ter sido. hm. e o que é que foi, afinal?

como diz o pequeno que me acompanha a vida: nunca saberemos.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.