00:46

esses dias estava pensando (o que eu penso sempre quando estou nessa situação) em como nós formaríamos um belo casal se não fosse tudo aquilo que nos separa. pensei tanto e percorri um caminho oblíquo até me deparar com uma verdade: eu não sinto a sua falta. isso, talvez, possa soar um pouco rude. ou, talvez, devesse representar alguma espécie de comemoração ou vitória. foi aí que travei. acontece que eu acho que eu deveria sentir a sua falta. não sentir me faz achar que estou perdendo boa parte da minha sensibilidade. quero dizer, devo estar ficando menos sensível. afinal, costumeiramente, eu sinto falta das pessoas como se me doesse a alma - isso se elas de fato tiveram alguma importância. sinto, sim, mesmo que a minha ligação com elas seja superficial, tão vulnerável como uma bolha de sabão. é que eu amo fácil e me acostumo depressa. mas, agora, parece que me desacostumo tão rápido quanto (fico torcendo pra que seja só com você e que, nas próximas vezes, eu morra de saudades). e num lampejo de ansiedade, fico agoniando num domingo a noite imaginando como será a minha próxima história de amor. às vezes, elas duram segundos. é que eu tenho amor demais guardado e, não sei se sou prudente nisto, mas... sempre que posso distribuo esse amor. aonde que que seja, com quem for, desde que encontre ninho.

eu

20:43

sou oceano, tornado, tsunami
sou morfina, valium, heroína
rouquidão, cansaço, cefaleia
apostasia, espírito e prece

23:26

eu me apaixono. é sério. eu me perco na minha paixão. e é perdidamente, como dizem. mas é sincero, juro. tão sincero quando o meu desapaixonar. não sei quando isso acontecerá, como poderia? mas acontece e deixo que seja, natural, como deve ser. não sei se chego a entregar meu coração. na minha cabeça, essa é uma metáfora intensa demais. para aquelas ocasiões únicas (existe isso?). só sei que acontece. e a todo momento.

22:19

eu me dedico
eu me abdico
eu me deponho
e te trono e te adorno
e te juro e te amo

mas e eu? mas por quê?

01:38

um amansa e o outro agita
ou outro agita e um amansa
ou outro agito e uma dança

13:15

qui est la plus belle?
dis-moi, qui est laquelle?
je pense que je t'aime
mais quel est ton nom?
j'sais pas
je rêve à toi, mon coeur
mais aprés, j'oublié
pardon, pardon

21:56

cansada. mas do futuro. cansada de pensar no que virá, em como terei que agir, reagir. no que precisarei fazer. a dor que terei que enfrentar. o desemprego. a correria. as contas que terei que prestar (e pagar). pelos meus excessos. pelos meus erros (erros?). cansada só de pensar no olhar das pessoas. "que louca". cansada de ter que ser social. de precisar me esforçar sempre para que as relações sociais sejam mantidas por conversas agradáveis e "boa tarde"s. cansada até de não me encaixar nisso tudo. é um cansaço estranho. quase uma estagnação. não, melhor, um comodismo. cansei e é assim que será. pessimismo? passa, eu acho. é como otimismo. e nada acaba, como diria dr. manhattan. mas se nada acaba, nada dura... hm.

Carta a Georges Izambard (Rimbaud)

00:10

Charleville, 13 de maio de 1871
Caro Senhor!

Ei-lo novamente professor. Devemo-nos à Sociedade, disse-me o senhor; o senhor faz parte dos corpos de ensino: o senhor vai no bom caminho. – Eu também, sigo o princípio: faço-me cinicamente sustentar; desenterro antigos imbecis do colégio: tudo o que posso inventar de idiota, de sujo, de ruim, em ação e em palavras, dou a eles: pagam-me em canecas e em moças. Stat mater dolorosa, dum pendet filius.2 – Devo-me à Sociedade, está certo, – e tenho razão. – O senhor também, o senhor tem razão, por hoje. No fundo, o senhor só vê em seu princípio poesia subjetiva: sua obstinação em voltar à manjedoura universitária – perdão! – o prova. Mas o senhor sempre terminará como um satisfeito que nada fez, já que nada quis fazer. Sem contar que sua poesia subjetiva sempre será horrivelmente enfadonha. Um dia, espero – muitos outros esperam a mesma coisa –, verei em seu princípio a poesia objetiva – eu a verei mais sinceramente do que o senhor seria capaz! Serei um trabalhador: é essa a idéia que me retém quando as loucas cóleras me impelem para a batalha de Paris3, onde tantos trabalhadores ainda morrem enquanto lhe escrevo! Trabalhar agora, jamais, jamais; estou em greve.

Agora encrapulo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta, e trabalho para tornar-me vidente: o senhor não compreenderá de modo algum, e eu quase não poderia explicar-lhe. Trata-se de chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser forte, ter nascido poeta, e eu me reconheci poeta. Não é absolutamente minha culpa. Está errado dizer: Eu penso. Deveríamos dizer: Pensam-me. Perdão pelo jogo de palavras.
EU é um outro. Azar da madeira que se descobre violino, e danem-se os inconscientes que discutem sobre o que ignoram completamente!
O senhor não é professor para mim. Dou-lhe isto: será sátira, como o senhor diria? Será poesia? É fantasia, ainda. – Porém, suplico-lhe, não sublinhe nem com lápis, nem demais com o pensamento:

CORAÇÃO SUPLICIADO

[...]
Isso quer dizer alguma coisa.
RESPONDA-ME, endereçando ao sr. Deverrière, para A. R.
Bom dia de coração,
Arthur Rimbaud


(Extraido de http://www.scielo.br/pdf/alea/v8n1/10.pdf)

te amo

18:16

não quis te ver
(ver é pouco)
te senti
de todo jeito

fui aquário
e você peixe

te contaminei

lapa

18:15

negros, os olhos
pretos, os cantos
sóbrias, as esquinas
ébrios dionísios
e pardos, à noite

poema

18:13

saudade de te ligar
e falar: vem aqui
e você aparecer
e a gente ficar rindo
de bobeira sem fazer nada
de útil pro mundo
só pra gente

(escrito em 2010 ou 2011)

rascunho

19:26

1. Ok. Vim aqui colocar tudo em palavras, porque ando meio saturada. Prefiro assim, porque num diálogo entro em curto quando o outro não consegue assimilar bem os signos e seus respectivos significados. Deve ser por isso que evito dizer tudo, deixo pela metade. Quem quiser, que tente compreender.

2. Quanto mais o tempo passa (e a vida/Deus nos permite saber), vejo como estamos desaprendendo a nos relacionar. Quer dizer, fico me perguntando se já soubemos algum dia. Me decepciona que as palavras que saem da boca não correspondam ao que faz. Antes errada, do que hipócrita, não acha? Bem, eu acho.

3. Outra coisa que não entendo é esse desejo quase incontrolável que as pessoas próximas (e até as não muito próximas) têm de controlar a vida alheia. Não digo isso relacionando a quem fica fazendo fofocas ou se intrometendo de fato, isso também acontece. Mas me refiro, principalmente, àquela chata exigência de quem quer certos comportamentos, só porque acredita que agiria dessa forma. É um ponto de vista muito egocêntrico e prepotente, eu diria.

4. Mas, talvez, eu também seja muito egoísta.

5. Enfim, se é pra celebrar a diferença, façamos isso em todos os níveis, então.

obs.: Não consegui colocar tudo em palavras.

22:24

Se eu não te amar

como você me ama
peço que me odeie
imploro que me deixe
você pode até me difamar
mas suplico: não me despreze
se não volto e te puxo pelos pés
dizendo que te amo que te quero
que não vivo sem você

vai ser um tormento só
até você me amar de novo

Diagnóstico

01:03

Ah, doutor
me diz o que tenho
e se tenho
me explica
se é câncer, se é gripe
se vai passar

se for só uma vacina
eu tomo
se for só um remedinho
eu topo
mas se for cirurgia...

me diz, doutor, me diz
só não me deixe sem resposta

A criança

20:54

criança, onde está você?
há quanto tempo não a vejo
nem sei mais, os dias voam
mal sabia dos desejos do mundo
bem vivia o não-saber
tudo lhe perdoavam
para que sorrisse
sem demora, diziam:
o que queres, criança?
por que choras, menina?
não tem problema, meu bem
mas o que era problema, afinal?
o que era ruim?
não me lembro
saudade, criança, saudade.


23:55

As desculpas mais
esfarrapadas
desconexas
dilaceradas
embriagadas
intolerantes e
amedrontadas
que eu já ouvi na vida.

19:24

na sua boca
eu sou sereia
sou morena
vou da savana
à hong kong

é só desejo
nem disfarça
me rabisca
me amassa
depois beija

ai ai, seu amor me redesenha.

22:46

tentei não decorar todas as tuas manias
tentei não colorir todas as tuas falhas
tentei não desenhar sempre o teu sorriso
perto do meu

pensei se por acaso tu viesses
pensei se por descaso te perdesses
pensei que com cuidado eu seria
todo seu

deixei tudo de lado e fui te ver
deixei até o meu eu-lírico por você
senti saudade dos poemas
voltei.

Lembranças

02:12

A madrugada me acordou. Queria me fazer um convite, mas acabou falando algumas insanidades. Tudo bem. Abri a porta da varanda, sentei no chão gelado. Encolhi-me. Tudo sempre foi tão grande, sempre será.   As estrelas cintilavam - bem, eu acho que era isso que estavam fazendo - e conversavam comigo. Depois, cochichavam entre si. Espertas como pensei que eu fosse. Sorri. Os papeis já amarelados pelo tempo não estavam ali ao acaso. Todos me esperavam. Desenhei um sorriso aleatório, dois olhos, um lindo nariz. A lua acenou (estava morrendo de sono). Fiz mais outros não-sei-quantos desenhos. O frio levantou cada um dos pelos do meu braço. Busquei um casaco. Sorri e misturei os desenhos com o lápis. Quis conferir os papeis. (Engraçado, reconheço estes rostos).

O primeiro rosto me lembrou claramente uma senhora, que costumava sorrir o mesmo riso sempre - sem ficar cansativo. Nunca soube como ela conseguia - nem nunca saberei. Era a vovó, a falecida, bem amada. Em outro desenho, pude ver a praia, o Sol lá no fundo - como se já estivesse cansado do seu ofício - e, na frente, Lúcia sorria. Era ainda um botão. Lembrei do verão de 95. Linda. Enquanto eu observava, os desenhos se transformaram em fotos antigas, tornando-se parte da minha memória. Já estava extasiada, a Lua parecia ter despertado e gargalhava. Nessa exata hora, eu vi um rosto. Meu Deus! Sereno, como costumava ser, mesmo quando eu fazia meus escândalos. Com um lindo - lindíssimo - e delicioso sorriso. Ah, meu Deus! Era sim, quem eu menos esperei, digo, quem eu mais esperei. Estava ali, olhando-me. Suspiro. Se eu pudesse beijar sua boca...

Aproximei o papel dos meus lábios e dei-lhe um beijo terno. Ele respondeu. Colocou as mãos em meu rosto e me deu um beijo apaixonado. Abri os olhos, assustada, enquanto ouvia as estrelas batendo umas nas outras, rindo. Era ele, inteiro. Trocamos beijos, carícias e amores até todos adormecerem. (Quero sonhar com isso).

O Sol me despertou num sopro e, rindo sem parar como uma criança chata, espetava-me. Nessa brincadeira, quase fico cega. Ai, que dor! Sentei-me, vi alguns papeis rabiscados - não consegui decifrá-los dessa vez. O azul estendia-se por todo o céu. As poucas nuvens que passeavam me fizeram cara feia. A manhã me chamou e me disse coisas inteiramente agradáveis. Sorri. (Eu me lembrei de tudo).

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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