19:00

todo mundo busca por um fim
talvez não o final de tudo
das coisas não eternas
fatalmente findáveis
talvez nem a morte
branda e trêmula
de tanta velhice
mas o desígnio
mas o escopo
o alvo exato
claro, níveo
e cândido
para que
enfim
vocês
e eles
e elas
e vós
e nós
e tu
e eu
e todos nós
vejamos

23:17

fico a pensar
estivemos sempre perdidos
ou fui eu quem resolvi me encontrar?

20:53

ela me olhava
às espreita
astuta e lúbrica
pequena e cintilante
presente nos olhos de quem via
de quem se via no espelho

lá estava
aonde?
ao redor
como quem brinca
de ciranda, cirandinha

pra minha sorte
decidiu voltar

parecia sorrir
mas não sei, não vi

estava tão próxima
alerta e vigilante
esperando pelo fim
da próxima emboscada

20:47

pesada como chumbo
amarga como fel
leve como a lâmina
que corta e fere
e doi e sangra
e prende e estanca
e não para nunca
de doer

19:26

todas as vezes
que nos vemos
que nos virmos
que nos víamos
que nos vimos
sei lá

perdi o tempo
a exatidão
do ponto certo
inequívoco
de nós dois

pra poder perguntar:

quando foi
a última vez
que eu usei
o verbo ver
com você?


23:54

se eu tivesse um coração
te amaria por inteiro
sem incertezas, nem receios
te amaria pra ontem, pra hoje
por amanhã

saberia de cor
seu nome, seu número
seu cheiro

te daria presentes
a qualquer hora
e te encheria de beijos

diria sempre
ao pé do ouvido
assim, baixinho
que te amo

e, numa tarde de domingo,
seria você meu par
debaixo do banho

por isso, meu bem, imagino
presumo, suponho

deve ser triste saber
que roubaram o coração
que eu daria pra você

23:07

Lá do alto te avistei
planava baixo sob mim

sem saber
da inconstância
da insensatez
do medo de ser
me atirei

que
      da
          li
             vre

por sorte me recebeu como num
ninho de passarinho

alívio
redenção
gratidão

fiz planos
deu pena
de asa quebrada
não notei

passado o primeiro vento
bateu asas e voou
planando alto sobre mim

troca poética

00:02

quando li seu poema
quis transcrevê-lo
com meu lápis, no meu papel
quis fazer dele meu
quis transformá-lo
transumi-lo
transviá-lo
transcendê-lo, enfim

perceba
quis não que fosse pra mim
- como você bem o fez -
mas que fosse exatamente meu

para que pudesse ser
finalmente
de mim pra você

22:33

antes eu fosse um pássaro
daqueles bem pequenos
pássaro-passarinho
pra voar no miudinho
praí ou pra lá
te visitar e cantar que te amo
ou que te odeio
e quando morresse
- se morresse -
não seria um drama, uma dor
seria simples
seria porque tinha que ser

reflexo

02:24

olhei e não me reconheci
uma figura estranha, esguia
mas ela me olhou e viu
quem eu não sabia
e me mostrou
meu seio, meu quadril
meu eu dentro do peito
maior do que cabe dentro
de uma imagem no espelho

19:55

acordei com vontade de nós
lembrei do motivo de ser só eu
e, num suspiro levemente aliviado,
desatei

registro de um devaneio

19:49

[tô com essa ideia na cabeça e precisava registrar.]


o que é a morte se não o esquecimento?
a vida é o quanto conseguimos guardar dela
nós somos o que conseguimos lembrar de nós mesmo
(e, para os outros, o que eles lembram de nós)
daí o "elvis não morreu", né? pelo menos eu acho que tem tudo a ver
uma teoria tão clara numa frase tão popular
uma teoria, sim. porque, sei la, pode ser que a morte seja outra coisa totalmente diferente

17:48

a poesia me salva da mais completa insanidade (ou seria ela minha própria redenção à loucura?) - falo comigo mesma e não chego a conclusão alguma sobre esse assunto.


texto: isabella mariano
desenho: juane vaillant

22:19

foi tipo uma explosão
só que um pouco ortodoxa - por conta dos rituais
mas foi grande o encontro
as ideias, elas se encostaram
daí saiu uma faísca somente, no início
ninguém pensou que fosse grande coisa
ninguém mesmo, nem eu
as luzes estavam quase se apagando
quando no instante um barulho
aconteceu
é, ele, de fato, aconteceu
o verbo é exatamente esse
sim, sim
exatamente esse
.


Calibre 32

01:35

O despertador chamava para um novo dia. Ele, preguiçosamente, decidia dar ao dia uma chance de fazê-lo feliz. Nessa exata presunção. Um bom dia a jovem esposa e os pés quentes tocavam o chão frio a caminho de mais uma jornada de trabalho. Banho, gravata, sapatos. No escritório, dedicava-se arduamente aos processos que recebia todos os dias em sua mesa. Com um sorriso automático, dizia ao chefe que logo o relatório mensal chegaria a suas mãos. Aceitava a hierarquia como aceitava as imprevisibilidades da vida. "Simplesmente, aconteceu", pensava. Aconteceu de  ele estar ali e ouvir o que não deveria. Aconteceu de ficar calado. Aconteceu de esquecer.

Ao final do dia, o que importava é que ele se considerava um bom homem. Um homem de bem, daqueles que não perdem o dia de declarar o imposto de renda e devolvem o troco. Tinha uma péssima mania de querer ser sempre recompensado pelos seus bravos esforços  - e aqui entra o meu juízo. Já a esposa achava uma virtude essa capacidade de "conseguir doar-se por completo a tudo o que fazia".

Os olhos sempre atentos a qualquer coisa que não lhe dissesse respeito fitavam pacientemente a vida alheia. Na melhor das intenções, com suas incríveis ideias. Ele acreditava, com fé (talvez), que seus métodos eram os melhores. Dormia e, às vezes, sonhava com suas incríveis resoluções para os problemas sociais. Impostos, toque de recolher, armas. Era simples: para ele, o medo funcionava muito bem.

Faltavam cinco minutos para o final do expediente. Ele já tinha se preparado para sair, quando o chefe pediu que ficasse um pouco mais, que fizesse umas ligações em nome dele, porque confiava em seu trabalho. Às 18h01, todos os outros funcinários haviam ido embora. A tarefa era simples. Discar alguns dígitos no telefone e dizer as palavras anotadas no papel: "Enviarei um mensageiro em trinta minutos".

O endereço estava no envelope, deixado minutos atrás pelo chefe que já estava a caminho de seu luxuoso apartamento, na zona rica da cidade. Sorriso no rosto, apagou as luzes do escritório, trancou todas as fechaduras, ativou o alarme e deu partida no seu carro, um gol ano 98. Chegando no local, a rua lhe pareceu mais escura do que imaginava, mas tinha um carro branco importado piscando as luzes do farol. Intrigado, pensou: "Coisas do escritório. A hora extra vai compensar".

Desceu do seu modelo 98 e acenou. O farol se apagou e dois homens gordos, com a pele rachada de Sol, desceram do veículo. Como um soco no estômago, o medo apareceu. Não parecia ser uma situação corriqueira do escritório, parecia apenas uma imprevisibilidade. Tentou pensar nos benefícios do medo, na tentativa de melhor aceitá-lo.

Os homens gordos o olhavam como quem se acostumou com a miséria. Apenas o encaravam como se ele não fosse nada. Como se ele não merecesse recompensa alguma por sua digna fidelidade aos chefes das hierarquias. Como se, ali, nada disso importasse. Os gordos estenderam as mãos, envoltas com luvas brancas. Tentando esconder o medo, ele entregou o envelope pardo que, de repente, lhe pareceu  estar cheio de qualquer coisa ilícita.

Tendo cumprido sua missão, dirigu-se ao seu carro velho, acenando mais uma vez. Um dos gordos falou: "Um segundo". Ele parou, aterrorizado, sem acreditar no submundo que acabava de entrar. O outro gordo disse: "A grana tá errada", quase murmurou. Logo em seguida, um grito fez o homem de bem se arrepender por ser tão bom: "Vocês tão querendo foder a gente".

A arma, um revólver calibre 32 cano longo, meio retrô, brilhou na escuridão da noite. Fechou os olhos e fez seu último pedido: "Que o inferno seja um lugar bom".

22:16

já não sabia quanto tempo passara ali, a observar o vento levar as folhas de um lado a outro. os pombos pousavam bicando, em vão, o chão sujo. pequenos insetos corriam loucamente pelas raízes das árvores. estranhava que a natureza os tivesse feito todos iguais. embora soubesse que algumas formigas eram maior do que outras. um pensamento feliz lhe veio à cabeça: lembrou-se que domingo era seu dia de folga. alegrando a alma com as pequenezas da vida, esperou a noite chegar e, ali mesmo, dormiu.

perda

22:11

o passado do passado
sabe como é isso?
andara, olhara, pensara
sara, minha querida
que saudades de você!

22:05

I
Bastava encontrar a razão do seu viver; sua atmosfera, que seu coração de rocha metafórica tornava-se fogo ardente. Acelerava. Corpos, outrora celestiais, no momento eram puro desejo pecador, em busca da tão desejada colisão explosiva.

II
Assim que os viam, gritavam desesperadamente: "Corram!". Faíscas chegavam primeiro como um sinal de ameaça constante. As pessoas queriam se proteger do perigo que parecia ser quando eles insistiam em pôr os pés na Terra. Corpo e química na atmosfera. Um amor cadente.

(Feito em parceria com Juplin Jones)

21:56

comecei a sentir umas pontadas
sei lá aonde, acho que na imaginação
não quis marcar consulta pra saber
mas achei que pudesse piorar
procurei os sintomas na internet
câncer, medo ou estresse
fiquei confusa e quase desisti
foi quando li alguém dizer
"acho que estou ficando louco"
ah, bem! agora tudo faz sentido
não era nada assim tão preocupante
e o diagnóstico me dei às pressas:
sofro de uma loucura constante
mas antes que lotem o sanatório
me auto-mediquei sem medo
um poema-pílula a cada pesadelo

18:19

a poesia está em mim
eu sinto as dores do parto
os chutes das palavras na boca do estômago
volta e meia, entro em trabalho de parto
e o que nasce, não nasce pra mim
nasce pro mundo
parte

disritmia

23:56

senti uma dor no peito
o dia inteiro
como se quisesse dizer
qualquer coisa não dita
na esperança de que a boca
se abrisse sozinha
quase desmaiei sem respirar
mas logo pensei:
"acho que estou tendo
uma arritmia poética"

22:53

a imagem parece real
a imagem é uma imagem
a imagem de um cachimbo
ora pois, jamais será um cachimbo
ela é, realmente, uma imagem
e só

01:22

o coração cambaleava
a passos lentos
zonzo da correria que era
ser, ter e não ter mais
ou não ser mais

às vezes, desandava
ziguezagueava
esgueirando-se nos becos da cidade
e, tomado por tamanha ebriedade,
dormia

tentava dizer, mas não falava
"vaidade das vaidades"
e doía, contorcia-se
desequilibrava-se em suas acrobacias
depois, caía

veja bem, querido, eu te descrevo
um pretérito aparentemente perfeito
no qual eu caía, ele caía e nós também

imagino, agora, neste instante
o presente e seus duplos sentidos
quando eu vou, você vem

e a gente fica

12:03

por fim, o que tem que ir
é de outro tempo
digo adeus
e uma dor estala


com sorte, o que é de vir
chega com carinho
diz olá
e se instala

00:06

e a fotografia inédita já parece envelhecida. é como se soubéssemos que o que estamos vivendo não é nosso. ou melhor, é... aliás, é só nosso. ninguém mais entenderia, caberia, toparia conviver. é como se não coubesse nesse tempo, nesse espaço. é como se estivéssemos perdidos nas galáxias que nos envolvem. sem saber em qual universo se completar. sempre fazendo tudo certo do jeito errado. e agora só nos resta aceitar: a gente se pertence.

corpo e alma

23:08

uma alma cansada
pensa que está envelhecida
pouco se importa com os erros cometidos
e sem muito vigor
diz verdades despretensiosas

canta baixo pra não incomodar
mas sua modéstia é o que causa todo o alarde
passos lentos sem muita teoria
cabe dentro tanta poesia
que parece não se conter

voz rouca e um pouco falha
sussurra e, sem falar,
exala tudo o que sempre quis dizer

já o corpo, pobrezinho
corre pra envelhecer logo
e sintonizar sua alma
no ponto certo.

10:25

aceito
não tão despretensiosamente
mas aceito

aceito sua ausência
seu perdão engasgado
aceito suas mentiras

é o preço de te ter por perto
por isso, ainda
aceito

23:44

ontem tava falando sobre a dor de conviver com o saber. e hoje me peguei pensando numa coisa: por que pessoas muito boas adoecem de formas tão trágicas?

cheguei a uma conclusão óbvia: não sei. talvez, não haja resposta para essa pergunta. talvez, não seja essa pergunta a ser feita.

aceitei minha ignorância. continuei triste, mesmo não sabendo.

preciso elaborar melhor.

01:04

o egoísmo é um tipo de cegueira muito difícil de curar

a gente nasce egoísta
uns buscam a sua cura
outros não

(tem também quem não foi avisado do problema.)

saudade

00:58

tá faltando um pedaço aqui
quando precisei, não vi
resta saber quem perdeu
se foi você ou se fui eu

televisão

00:38

eu tive vontade de escrever um texto motivacional, porque percebi uma tristeza exagerada nas pessoas. depois pensei que essas coisas quase nunca são efetivas (para a cura). esses livros, esses textos, essas imagens são como analgésicos. aliviam a dor que estala constantemente em nossa existência. mas ela volta. observem, porém, que não faço um juízo de valor, analiso apenas a praticidade do procedimento.

tem gente que gosta de depender de analgésicos. tem gente que gosta de depender de outras coisas. fico me perguntando se sempre precisaremos de "coisas para depender". e isso me doi. por isso, passo muito tempo assistindo televisão quando penso demais em minhas dúvidas. é o meu analgésico.

uma coisa que me entristece é saber que o saber é uma dor, uma dor como aquele espinho na carne de paulo. uma dor meio que naturalizada, que anda com a gente, acorda, vive, dorme e morre com a gente. tudo soa meio triste quando coloco nesses termos. o saber envolve tantas coisas boas, mas acho que isso fica só no início da vida, quando tudo é descobrimento e novidade. depois: só desgraça. e tudo isso nos consome por dentro. (pensei em incluir uma frase motivacional aqui, como: "precisamos recuperar a sensação da novidade", mas acho que você também pensou nisso)

não me sinto deprimida. me sinto até muito feliz, talvez privilegiada. gosto de ver televisão, ler meus livros. gosto de observar minha estante perder espaço, gosto de tomar um banho quente quando está bem frio. gosto de abrir a geladeira e ter algo bem gosto pra comer. gosto de ter amigos e de poder beber cerveja com eles. gosto de saber escrever e, principalmente, de poder escrever poemas. gosto de dormir, apesar da infernal dor na coluna, em minha cama confortável (com meu cobertor confortável). gosto das coisas boas que tenho. gosto de toda aquela baboseira importante: beijos, pôr-do-sol, carinho, sorriso, etc e tal.

mas carrego a tristeza do mundo comigo. como se fosse um objeto a ser observado, estudado. volta e meia acendo a luz da esperança. mas, confesso, às vezes, eu a apago. quando isso acontece, me apego a um dos meus poucos pensamentos motivacionais: poderia ser pior.

e assisto televisão.


3

14:57

tive um pensamento em vão
porque é certo que não sei voar

ou será que de tanto pensar
conseguirei?



decidi parar as divagações por aqui

2

14:56

passou um tempo
ainda fitava aquela foto
lembrei que pra voar
não precisa nem de pé

nem de chão

1

14:55

parei em frente à janela
vi aquela foto e pensei:
só se anda com o pé no chão

04:04

se amar é um convite
aceito, assim, bem dev ag ar i n h o

é que o meu desamar
porém
é bem rapidinho

15:13

vem ser ou vencer?
não decifrei a palavra
porque a diz em rodeios
com seu ego inflado de duplos
sentidos

me vi, então, perdido no labirinto
que você criou

mas como pode o criador não conhecer sua própria criatura?
nos perdemos do fim
mas nos encontramos, ali
na eternidade

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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