canto das águas

18:55

é esse meu corpo-água
que em cada desnível se lança
sem plano, estratégia ou meta

me permito e ele vai
desritmado
seguindo o tempo do vento
esquecendo de marcar o compasso

pode ser que, em fúria, te ame
e, num gozo profundo, declare
a beleza de um agora
de um instante
harmônico
entre eu e você

pode ser que, em graça, despreze
não por ódio ou malvadeza
mas por um amor meio fora do tom
meio desafinado
brega

amor ao rio, à nascente, ao oceano
ao vento e ao curso das águas
ao riacho, à queda d'água...

amor.

Contando histórias

10:39

Há algo sobre o tempo que é meu espinho na carne. Você não vê? Não sente também? Há algo peculiar e curioso em como ele me atravessa, na forma em que puxa meu corpo para o centro da Terra e estremece meus átomos tão delicadamente que quase não noto. Às vezes, me sinto uma senhora de 90 anos, observando a vida que me passa, sendo acometida de tempos em tempos pela ideia de que já vivi algo semelhante ao que estou vivendo. E, às vezes, me sinto como um bebê que mal percebe a passagem da vida por si, que mal entende do que se trata o medo que sente e o deslumbramento que lhe brilha os pequenos olhos.

"O tempo é simultâneo", eu li há alguns anos. Li como um bebê que entende algo pela primeira vez, mas, não sei como explicar sem pareça metáfora - juro que não é; ao mesmo tempo, senti como se fosse aquela velha senhora que sempre soube, que só tinha esquecido por um segundo, porque a memória anda falha como é de ser.

Bem, espero que me perdoe as bobeiras dos últimos dias e os parágrafos mal explicados. É que aquela sensação de sonho - sabe? - ela não me sai do pensamento...

A velha, que habita seus anos bem vividos há anos de distância de mim, não entende ainda o porquê de eu fazer o que faço. O motivo de criar tantas histórias, tantas memórias, tantas ficções. Ela, de lá, sabe que isso, nem nada, levará a destino algum. O bebê, em seus sonhos mais sinceros e sorrisos fora de hora, entende que cada história vivida, contada ou imaginada é tão unicamente curiosa que o instiga a seguir a voz que o conta numa paixão quase voraz.

Doutra parte, eu. Eu que observo tudo feito um narrador. Ora paciente, ora impaciente. Ora observador apenas, ora participante como se deve ser. Eu, que não me aguento em mim em tantos eus que me cabem, sigo tomando meu café, fazendo o meu trabalho e dando vazão às paixões estúpidas, efêmeras e vaidosas. É que só sei contar assim uma boa e inesquecível história.

quando o silêncio me cala

00:47

procurei em vão um poema
que pudesse me dizer o que sinto
não ouso, contudo, escrevê-lo
pois o que me rói as entranhas
habita o lugar do indizível
sei do poder materno das palavras
observo, porém, meu silêncio
aflita

ainda que eu não diga nada
ou monte frases como essas
ainda que esqueça a fala
e jogue ao vento meu reticente vazio
ainda que o único som seja esse
que ouço agora neste instante
de carros e motos impacientes...

ainda assim
algo me roeria as entranhas
sem que eu pudesse dizer por que

feitiço

15:34

eu bem sei que esse seu papo é furado
coisa velha escondida no armário
e qu'esse seu coração é vagabundo
moribundo, meio estragado
resultado de um cupim isolado
que mordeu o seu amor bem devagar
mas enquanto cê tá indo com a farinha
eu já tô com o bolo todo preparado
pronta pra te servir numa tarde dessas
com um punhado de café coado
quando cê resolver por aqui chegar

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.