Contando histórias

10:39

Há algo sobre o tempo que é meu espinho na carne. Você não vê? Não sente também? Há algo peculiar e curioso em como ele me atravessa, na forma em que puxa meu corpo para o centro da Terra e estremece meus átomos tão delicadamente que quase não noto. Às vezes, me sinto uma senhora de 90 anos, observando a vida que me passa, sendo acometida de tempos em tempos pela ideia de que já vivi algo semelhante ao que estou vivendo. E, às vezes, me sinto como um bebê que mal percebe a passagem da vida por si, que mal entende do que se trata o medo que sente e o deslumbramento que lhe brilha os pequenos olhos.

"O tempo é simultâneo", eu li há alguns anos. Li como um bebê que entende algo pela primeira vez, mas, não sei como explicar sem pareça metáfora - juro que não é; ao mesmo tempo, senti como se fosse aquela velha senhora que sempre soube, que só tinha esquecido por um segundo, porque a memória anda falha como é de ser.

Bem, espero que me perdoe as bobeiras dos últimos dias e os parágrafos mal explicados. É que aquela sensação de sonho - sabe? - ela não me sai do pensamento...

A velha, que habita seus anos bem vividos há anos de distância de mim, não entende ainda o porquê de eu fazer o que faço. O motivo de criar tantas histórias, tantas memórias, tantas ficções. Ela, de lá, sabe que isso, nem nada, levará a destino algum. O bebê, em seus sonhos mais sinceros e sorrisos fora de hora, entende que cada história vivida, contada ou imaginada é tão unicamente curiosa que o instiga a seguir a voz que o conta numa paixão quase voraz.

Doutra parte, eu. Eu que observo tudo feito um narrador. Ora paciente, ora impaciente. Ora observador apenas, ora participante como se deve ser. Eu, que não me aguento em mim em tantos eus que me cabem, sigo tomando meu café, fazendo o meu trabalho e dando vazão às paixões estúpidas, efêmeras e vaidosas. É que só sei contar assim uma boa e inesquecível história.

quando o silêncio me cala

00:47

procurei em vão um poema
que pudesse me dizer o que sinto
não ouso, contudo, escrevê-lo
pois o que me rói as entranhas
habita o lugar do indizível
sei do poder materno das palavras
observo, porém, meu silêncio
aflita

ainda que eu não diga nada
ou monte frases como essas
ainda que esqueça a fala
e jogue ao vento meu reticente vazio
ainda que o único som seja esse
que ouço agora neste instante
de carros e motos impacientes...

ainda assim
algo me roeria as entranhas
sem que eu pudesse dizer por que

feitiço

15:34

eu bem sei que esse seu papo é furado
coisa velha escondida no armário
e qu'esse seu coração é vagabundo
moribundo, meio estragado
resultado de um cupim isolado
que mordeu o seu amor bem devagar
mas enquanto cê tá indo com a farinha
eu já tô com o bolo todo preparado
pronta pra te servir numa tarde dessas
com um punhado de café coado
quando cê resolver por aqui chegar

Temperança

15:30

Meu corpo de água me leva frequentemente a me derramar, feito queda d'água mesmo. Cachoeira furiosa que rege em majestade o curso das águas que lhe interpelam. Mas ela veio e me disse na leveza de uma brisa primaveril: temperança. Disse como um conselho terroso pra um coração exarcado. A vida me exige sobriedade, num tom quase diplomata de ser. Para que eu não diga tudo o que me ponho a dizer e tudo o que tenho dito. A vida me exige equilíbrio para que façam sentido minhas frustrações futuras, como se me levasse a acreditar num karma que nem sempre funciona. A vida pede que eu me dê menos, me coloque menos, me doe menos, me entregue menos e, se possível, fale menos sobre todo esse afeto que me transborda e que, facilmente, derramo sobre quem passa pelo meu caminho. Tudo isso para fazer com que eu sinta apenas o sofrimento que lhe é intrínseco e não mais do que isso. Ora, entrei numa espécie de desafio com a vida para lhe dizer que não me arrependo dos meus exageros, nem vejo suas dores como ameaça. Meu corpo-água me levou aos lugares mais sombrios que já estive, é verdade, mas foi ele também que me fez sentir as emoções mais elevadas que já pude conhecer. Digo isso numa tentativa rebelde de me compreender e compreender esse seu conselho, vida. Não sei ser menos do que sou, mas talvez deva esperar um pouco para ser ainda mais.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.