eu sou o caminho

18:39

e disse-me:
“quando se nasce
nasce-se para caminhar
tudo em que se pisa é meio
estrada que desemboca em lugar nenhum
o caminhar é, então, o matar das horas
dos minutos, dos segundos
até que não exista tempo para contar
até que não haja caminho
e nossas vozes se calem enfim
por isso, não temas, minha querida
a morte em si
é só mais um passo”

A mulher da Rua 7

18:38

Tinha certo descontrole no entrelaçar das pernas. A mão trêmula insistia em levar o copo à boca. Tinha certo descompasso, também. Era notório. Na ânsia de favorecer a intuição, tentava fazer com que nada escapasse do olhar, mas por isso mesmo as coisas lhe escapavam, como se fugissem dela, como se fosse melhor não saber. E, bom, talvez fosse mesmo. Dizia, raivosa, com o cigarro entre os dedos: "Se essa rua fosse minha" - dava uma pausa para que se fizesse o mistério - "Nada faria, nem se quisesse". Deixaria, dizia, que os outros fizessem. Que pintassem, que corressem, que deixassem como está. "Mas deus não dá asas às cobras, não é?". E punha-se a rir de quase cair do alto de sua cadeira de plástico. "Especialmente às que são como eu, com esse batom, esse sorriso e essa coisa entre as pernas". Mais um gole gelado e ia embora de repente, assim como veio. E pior: sem deixar um tostão pra conta.

Origami de mim

11:34

Ontem eu caí. Foi uma queda rápida que não ficou na lembrança de quase ninguém, nem na minha. Por um segundo, a gravidade não fez o mesmo sentido que fazia. Pesou demais. Esqueci as lições de equilíbrio e na mente vieram os primeiros passos. Época boa de sorrisos, em que tudo é novidade e existe todo amor do mundo pra te receber. Boa, mas passa, como tudo passa, inclusive aquele dia em que nos vimos e eu senti que poderia te amar pro resto da vida. Passou. Como eu passei por você sem notar. Só vi depois, inclusive: desculpa. Caí, mas não me lembro como foi. Sei que caí porque ainda me doem os ombros, o rosto, os dedos. Tudo dói como se a gravidade, ela mesma me pegasse pelas mãos, me dobrasse e fizesse um lindo origami. Origami de mim. Torço para que seja um tsurus.

Acho que é isso que tem acontecido, afinal. Caí e nem percebi. Foi tão rápida e tão astuta a vida, em me tirar do eixo. Rápida em me tirar o equilíbrio que construí ao longo dessas últimas décadas. Tudo ruiu e agora eu fico sem saber bem como foi que começou o fim do que havia antes aqui. Agora tudo em mim doi. É aquele poema de uma frase que escrevi tempos atrás, sem saber que era um prelúdio da minha própria história. "Eu não sou mais eu, mas só eu sei disso", eu escrevi, como se psicografasse um conselho de mim pra mim. Tola, não entendi antes. Agora entendo, no sentido mais estrito que a palavra pode ter. Agora vivo e a certeza de que não sou mais eu está dentro do meu peito. E bate mais rápido do que nunca bateu. Ontem eu caí. Hoje ainda estou tentando me levantar.

16:28

Eu quero ser o pássaro que volta e meia vai te dizer que vai ficar tudo bem. Mas nem sempre. Na maioria das vezes, eu vou te irritar. Vou ser aquele belo canto que você não aguenta mais ouvir. A doce melodia dos animais que contrasta com a poeira que vem da rua, da cozinha, das grandes fábricas perto da praia. Vou te irritar porque é bonito o que digo, mas não parece nada com o que você vê ao seu redor. Vou querer te fazer feliz, enquanto você vai implorar pela solidão. Mas estarei ali, assobiando canções de esperança, meio que pra ser do contra. Se você fosse o pássaro, eu mesma me faria corvo. Gosto de ser assim, oposto. Só assim pra transformar aquela noite louca que tivemos em prosa. Caso contrário, seria só mais um dia comum, sem nada muito extravagante pra fazer com que a minha péssima memória me lembrasse. E sei, também, que quando eu estiver corvo, você vai ser passarinho. Porque se não for assim, não será. É como se tivéssemos selado esse contrato no primeiro momento em que nos vimos. E isso não é tóxico, pelo contrário. É só a gente tentando fazer aquele movimento de soma, sabe? De apresentar alternativas aos desejos próprios, e alheios. Não fosse isso, o caminho seria sempre uma linha reta, do qual já saberíamos o fim sem perguntar. Pra nós, quem vive assim se engana. É uma grande farsa. Por isso a gente entorta a linha, vira curva. Por isso a gente se alterna entre passarinho e corvo. Pra poder, vez ou outra, se sentir vivo.

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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