23:16

eu vi algumas coisas. eu vejo mais coisas quando sonho. infelizmente pouco me lembro. sei pouco sobre o que supostamente sei e menos do que deveria saber. é que me atento aos detalhes. depois esqueço de ver o resto.

li a palavra que me formou. uma palavra me criou e existo por ela. por conta dela e em dívida a ela. por coincidência palavra é feminino - isso se fosse possível falar em coincidência. mas no léxico, lá está a danada da coincidência. bonitinha, a bicha.

chamo as coisas pelos nomes que disseram que elas têm. mas vejo que parece abominável que se criem outras palavras. ou se riem da criança que mal sabe seu lugar no mundo. ou se riem de quem se desatentou às aulas de português. fora isso é poesia. eu escrevia despois porque a babá falava assim. eu achava que estava certo. e não estava? digo, por que não?

então vi que era abominável que se criassem outras palavras. "tá pensando que é deus?", eles nos dizem ainda hoje. eu rio pois somos sim. mas no feminino.

querem que o foi criado há milênios permaneça. eu acho engraçado. porque nada obedece ao que se quer. antes aceitássemos esse movimento eterno da palavra tanto quanto se aceita o eterno balançar do átomo. queria que o princípio da incerteza se aplicasse a tudo. mas o que seria de todas as gramáticas, né? o que seria do futuro dessas palavras que escrevo aqui?

por outro lado, daqui de onde vejo tudo se move, mas tudo se move de um jeito tão parecido... como se fosse a reação mais provável e única que se poderia haver. como se não houvesse outro jeito. a história tem disso, não tem? parece que os livros me dizem que não haveria de ser de outro jeito, porque, veja bem, já foi assim e é só assim que poderia ter sido. hm. e o que é que foi, afinal?

como diz o pequeno que me acompanha a vida: nunca saberemos.

01:03

deixe-se um pouco
e não se apegue tanto
ao que pensa de si

ainda que eu diga
- que belos olhos!
não se equivoque a ponto
de pensar que vejo
nessa amostra de corpo
coisa como o sagrado

é que o pouco me é belo
e, sorrateiro, se torna muito
justamente por ser pouco
mas quando se pensa muito
- o próprio pouco -
desafia a beleza que lhe habita
- a partir de mim -

e ela, então, goteja
esvai-se
como cachaça
num cantil mal fechado

quase não se nota seu fim
e vez ou outra
lindamente, cai

23:11

Qual o sentido de permanecer, então? O estar pode ser tanto... Quando penso no que há - sim, há - além do tempo e das coisas em si sinto que o permanecer é muito mais. Por que permanecemos? É o que tenho me perguntado. Se somos assim tão livres quanto imaginamos, por que estamos constantemente voltando? Não há nada de mal em querer voltar, penso. Mal pode haver, talvez, na coisa para a qual se volta, mas quem sou eu pra falar nesses termos...

21:29

tempo em si é só palavra
signo
coisa que passa na'gente
figura quando passa mais do que é
mais do que palavra de cinco letras
mais do que estar por estar
toca quando passa o outro
quando passa o que não sou
e aquelas coisas outras todas que trazem
de lá pra cá
feito escambo de emoções e pensamentos

dá pra dizer: tempo é nada
porque não é mesmo
é o que dizemos que é
ponteiro e número
mecanismo e tal
verbete em dicionário
mas dá pra dizer ainda: tempo é tudo
quando tempo, palavra, extrapola seu próprio tempo
de coisa que tem
ou é
ou faz
e segue passando

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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