feitiço

15:34

eu bem sei que esse seu papo é furado
coisa velha escondida no armário
e qu'esse seu coração é vagabundo
moribundo, meio estragado
resultado de um cupim isolado
que mordeu o seu amor bem devagar
mas enquanto cê tá indo com a farinha
eu já tô com o bolo todo preparado
pronta pra te servir numa tarde dessas
com um punhado de café coado
quando cê resolver por aqui chegar

Temperança

15:30

Meu corpo de água me leva frequentemente a me derramar, feito queda d'água mesmo. Cachoeira furiosa que rege em majestade o curso das águas que lhe interpelam. Mas ela veio e me disse na leveza de uma brisa primaveril: temperança. Disse como um conselho terroso pra um coração exarcado. A vida me exige sobriedade, num tom quase diplomata de ser. Para que eu não diga tudo o que me ponho a dizer e tudo o que tenho dito. A vida me exige equilíbrio para que façam sentido minhas frustrações futuras, como se me levasse a acreditar num karma que nem sempre funciona. A vida pede que eu me dê menos, me coloque menos, me doe menos, me entregue menos e, se possível, fale menos sobre todo esse afeto que me transborda e que, facilmente, derramo sobre quem passa pelo meu caminho. Tudo isso para fazer com que eu sinta apenas o sofrimento que lhe é intrínseco e não mais do que isso. Ora, entrei numa espécie de desafio com a vida para lhe dizer que não me arrependo dos meus exageros, nem vejo suas dores como ameaça. Meu corpo-água me levou aos lugares mais sombrios que já estive, é verdade, mas foi ele também que me fez sentir as emoções mais elevadas que já pude conhecer. Digo isso numa tentativa rebelde de me compreender e compreender esse seu conselho, vida. Não sei ser menos do que sou, mas talvez deva esperar um pouco para ser ainda mais.

Palavra é útero de toda gente

10:53

as palavras me vêm
como nascentes
brotam únicas
com a certeza de que há um rio
que as traz até mim

me deleito no engano
engrandeço a ideia da autoria
penso que as palavras são minhas
mas sei

não sou eu quem lhes dou vida
olho pra dentro e percebo
eu não nasci quando nasci
a palavra é que me pariu

16:26

Eu, como muitas das escritoras que pessoalmente conheço, quero urgentemente escrever sobre o que vejo. Escrever sobre o que sinto, sobre o que imagino que poderia ser. Sobre as coisas que me interpelam e as que, inocente, acredito inventar. Sobre as repetições, também. Sobre os desacatos, os casos, as frustrações. Sobre o medo. Este em especial. Quero escrever como se toda minha existência dependesse disso. Mesmo quando me desloco, crio universos, personagens, mundos inteiros, é na tentativa de colocar o que vejo em palavras, em metáforas, em imagens. Sobretudo, o que mais me encanta neste jogo, que me é quase inevitável, é a maneira como as nossas palavras ecoam. Mais encantador ainda é observar o efeito dessas palavras em outras pessoas, em pessoas completamente diferentes, que veem, sentem, imaginam coisas diferentes; mas que, de alguma maneira muito curiosa e delicada, acabam se conectando com essas palavras. É como uma ironia. Somos são complexos, cada um com seus trejeitos e manias (é certo que alguns são mais parecidos entre si do que outros), mas de alguma maneira algo quase que exterior a nós nos motiva a encontrar no que o outro sente ou vê qualquer coisa em comum. 

Não é sempre, mas há momentos em que a existência se mostra a mim como algo a se admirar.

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.