14:58

eu queria que você desatasse o nó da minha garganta com a língua. ainda que fosse com a sua língua nativa. materna. e me contasse suas lendas, histórias ancestrais de um território-corpo cheio de desejos: o seu. e se derramasse feito queda d'água no meu peito pra que meu choro corresse em fluxo, desenhando os limites dessa ilha inabitada - que, por enquanto, somos nós.

16:38

Ontem choveu e me peguei lembrando do seu olhar. Não é nada, é só que a chuva me deixa assim, saudosa, nostálgica. Quando te vi pela primeira vez fiquei apavorada. Talvez eu queria que me visse assim, assustada, como se não soubesse o que estava fazendo. Mas sabia. Você também sabia. Tanto que não demorei a decifrar esse seu olhar. Minhas mãos trêmulas nada eram perto da profundidade que havia nos seus olhos. Deu um sorriso pra disfarçar.

É aquela sensação de vertigem. Como se não soubéssemos conceber completamente todas as razões que nos colocaram no alto daquele cume, daquela relação. Mas lá estávamos. Desejosos, pulsando pele e sentimento, tesão e pavor, amor enfim. Confesso que te amei por alguns dias. Acredito que foi a pessoa que amei por menos tempo, mas não sei medir intensidade. Nunca saberei. Só sei que amei.

Seu olhar me tocava. Sua mão me tocava. Sua fala ora rápida e desajustada, ora vagarosa e reticente, me tocava. Ainda toca, quando deixo a memória do ontem se fazer hoje. Quando me permito ver o tempo como um. Como ele é, de fato.

Ah, bem, cansei de medir amores pela duração que eles tiveram. Jamais os mediria por intensidade. Então, simplesmente não meço. Só me permito viver suas loucuras a medida em que me eles interpelam. E me acabo de saudade quando os vejo ir. Tardou, mas aprendi. Há uma força quase raivosa que provoca os encontros e os desencontros. Não cabe a mim, jamais caberá, impedi-la. Por isso, guardo a saudade em mim, bem fundo, para que quando chover eu tenha do que lembrar.

16:15

não é medo do fim
ou medo de ir embora
não é medo da queda
do erro, da falta
nem medo do oposto
do nulo, do que virá
essa vertigem, enfim,
não é medo do abismo
é medo de gostar de lá

três motivos por que te amar é divino

16:13

primeiro:
abrigas um sorriso manso
que não exige palanques ou cortinas aveludadas
tua graça enche campos inteiros
e faz brotar em mim vida
como fruto de uma terra seca

segundo:
tens em ti todos os desejos
de todos os mundos e de todos os tempos
não basta o que vistes ou que pensas em ver
é preciso que saiamos de nós
para, juntos, tocarmos a visão além do alcance

terceiro:
admites que não é preciso que te ame sempre
sabes que amar alguém a todo momento
seria demasiado cansativo
e que as energias que nos habitam
não o fazem apenas em nome do amor

16:12

quis te amar
a despeito de toda sua loucura
e que me amasse
apesar de todos os meus medos
não amei, porém
e num bilhete amassado
ensaiei meu pedido perdão:
"uma fantasia, amor
é o melhor
e o mais perigoso
dos remédios"

Saulo

16:11

tua saudade ainda me habita
como os nomes habitam as ruas
incapazes de se redizerem

recebi tua ausência
e depois de um longo curso
quis tê-la mais como dádiva
e menos como maldição

tua falta me leva a buscar
em lugares outros que não os nossos
em outros rostos, outros tempos
ainda que vazios do teu riso
ainda que manchados de alguma dor

tua saudade me faz seguir buscando

amor literal

16:10

seu cheiro
me lembrou uma frase
que quis te dizer
você
com seu jeito torto
de fala engatilhada
e riso voraz
você, meu bem,
é o poema
que eu queria escrever

música pr'os meus ouvidos

16:09

você pra mim
parece um blues
tipo nina simone
ou um jazz
meio etta james
billie holiday
sei lá
parece uma bossa
daquelas tristes
estilo noir
que me recolhe os ombros
perto da janela
antes de deitar
parece uma música que ouvi
com o menino cazuza
que esses dias me lembrou
daria tudo pra saber
"das cores e das coisas pra te prender"

os cinco sentidos

16:08

eu vou colocar meu olho
bem na frente do seu
e largar meu cheiro
debaixo do seu nariz
vou aplicar meu gosto
na ponta da sua língua
e plantar minha voz
feito música no seu ouvido
pra que, depois, sua mão
decida o caminho
e encontre minha pele
por puro e espontâneo
desejo

inverno

16:07

os inícios não me interessam muito
apesar de nunca esquecê-los
com sua flores de primavera
e suas cores sempre tão felizes
os meios tampouco me afetam
ora outonais, ora veranis
sempre indo do gozo ao luto
mas devo confessar
aqui entre nós e esses goles de cachaça
que os finais, ah, os finais, meu amigo!
esses sempre acabam comigo

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.