01:03

deixe-se um pouco
e não se apegue tanto
ao que pensa de si

ainda que eu diga
- que belos olhos!
não se equivoque a ponto
de pensar que vejo
nessa amostra de corpo
coisa como o sagrado

é que o pouco me é belo
e, sorrateiro, se torna muito
justamente por ser pouco
mas quando se pensa muito
- o próprio pouco -
desafia a beleza que lhe habita
- a partir de mim -

e ela, então, goteja
esvai-se
como cachaça
num cantil mal fechado

quase não se nota seu fim
e vez ou outra
lindamente, cai

23:11

Qual o sentido de permanecer, então? O estar pode ser tanto... Quando penso no que há - sim, há - além do tempo e das coisas em si sinto que o permanecer é muito mais. Por que permanecemos? É o que tenho me perguntado. Se somos assim tão livres quanto imaginamos, por que estamos constantemente voltando? Não há nada de mal em querer voltar, penso. Mal pode haver, talvez, na coisa para a qual se volta, mas quem sou eu pra falar nesses termos...

21:29

tempo em si é só palavra
signo
coisa que passa na'gente
figura quando passa mais do que é
mais do que palavra de cinco letras
mais do que estar por estar
toca quando passa o outro
quando passa o que não sou
e aquelas coisas outras todas que trazem
de lá pra cá
feito escambo de emoções e pensamentos

dá pra dizer: tempo é nada
porque não é mesmo
é o que dizemos que é
ponteiro e número
mecanismo e tal
verbete em dicionário
mas dá pra dizer ainda: tempo é tudo
quando tempo, palavra, extrapola seu próprio tempo
de coisa que tem
ou é
ou faz
e segue passando

11:15

Eu que sempre quis ser nada, enfim, sou. O tempo que te passa é seu. Mas sinto. Para sua infelicidade - ou não - sinto, imagino, como Cartola sentiu, a tristeza de estar só... E, agora, a alegria de estar junto... Também. Sinto.

16:06

Desde que você se foi, tudo mudou. Estranho dizer isso, porque sempre falei que a morte é só mais um passo, nada mais. E pra você foi, certamente. Eu é que fiquei. Primeiro eu morri um pouco junto. A dor tomou completamente a minha carne que costumava ser toda carnaval. Eu chorei, mas isso foi o mínimo. Impossível não sofrer com a sua ida. Acho que por isso resolvi ir também. Fui embora querendo ficar, mas só ficaria se você voltasse. Então fui. Depois, eu senti. Você, indo, me lembrou que o corpo é a única coisa que eu tenho, mas que também não é nada demais. Nada demais, como tudo. Fragile. Então o pouco que me restou de sagrado se desfez. Coloquei meu corpo no mundo, não como quem finge. Eu realmente estava lá (ainda estou). Queria sentir qualquer coisa que não fosse saudade. Você teria se orgulhado de tudo o que a pele me fez sentir quando estava lá. E riríamos juntos da minha audácia. Mais tarde tive medo. Medo de que não sentisse mais nada que não fosse o que a pele me dava. Então decidi amar qualquer pessoa que me aparecesse. Mas não é a mesma coisa, você sabe. Você me entenderia e ficaríamos contemplando a existência enquanto nos perguntaríamos o que é o amor. Amei amores tão vazios que secaram rápido. Quis me abrigar em qualquer canto e tem sido assim desde então. Não encontrei lugar como o que havia em você. E sei que não encontrarei. Por isso, volta e meia choro. Ficar dói mais do que partir, nesse caso.

23:34

eu sou pouco
nunca serei muito
é que me apego nesse meu tamanho
coisa miúda que sou
sambo baixo pra não atrapalhar
tenho medo de entrar onde não me é familiar
bi-cho do ma-to, mas nem sempre
há certa força na minha pequeneza sim
mas também é pouca
admito sem medo
até porque quem vai ouvir?
eu, só, sou quase nada
carrego comigo a certeza de ser assim
um pouquinho de nada
partícula leve de poeira
pedaço de brisa
que volta e meia
faz a fruta cair do galho

Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.