Calibre 32

01:35

O despertador chamava para um novo dia. Ele, preguiçosamente, decidia dar ao dia uma chance de fazê-lo feliz. Nessa exata presunção. Um bom dia a jovem esposa e os pés quentes tocavam o chão frio a caminho de mais uma jornada de trabalho. Banho, gravata, sapatos. No escritório, dedicava-se arduamente aos processos que recebia todos os dias em sua mesa. Com um sorriso automático, dizia ao chefe que logo o relatório mensal chegaria a suas mãos. Aceitava a hierarquia como aceitava as imprevisibilidades da vida. "Simplesmente, aconteceu", pensava. Aconteceu de  ele estar ali e ouvir o que não deveria. Aconteceu de ficar calado. Aconteceu de esquecer.

Ao final do dia, o que importava é que ele se considerava um bom homem. Um homem de bem, daqueles que não perdem o dia de declarar o imposto de renda e devolvem o troco. Tinha uma péssima mania de querer ser sempre recompensado pelos seus bravos esforços  - e aqui entra o meu juízo. Já a esposa achava uma virtude essa capacidade de "conseguir doar-se por completo a tudo o que fazia".

Os olhos sempre atentos a qualquer coisa que não lhe dissesse respeito fitavam pacientemente a vida alheia. Na melhor das intenções, com suas incríveis ideias. Ele acreditava, com fé (talvez), que seus métodos eram os melhores. Dormia e, às vezes, sonhava com suas incríveis resoluções para os problemas sociais. Impostos, toque de recolher, armas. Era simples: para ele, o medo funcionava muito bem.

Faltavam cinco minutos para o final do expediente. Ele já tinha se preparado para sair, quando o chefe pediu que ficasse um pouco mais, que fizesse umas ligações em nome dele, porque confiava em seu trabalho. Às 18h01, todos os outros funcinários haviam ido embora. A tarefa era simples. Discar alguns dígitos no telefone e dizer as palavras anotadas no papel: "Enviarei um mensageiro em trinta minutos".

O endereço estava no envelope, deixado minutos atrás pelo chefe que já estava a caminho de seu luxuoso apartamento, na zona rica da cidade. Sorriso no rosto, apagou as luzes do escritório, trancou todas as fechaduras, ativou o alarme e deu partida no seu carro, um gol ano 98. Chegando no local, a rua lhe pareceu mais escura do que imaginava, mas tinha um carro branco importado piscando as luzes do farol. Intrigado, pensou: "Coisas do escritório. A hora extra vai compensar".

Desceu do seu modelo 98 e acenou. O farol se apagou e dois homens gordos, com a pele rachada de Sol, desceram do veículo. Como um soco no estômago, o medo apareceu. Não parecia ser uma situação corriqueira do escritório, parecia apenas uma imprevisibilidade. Tentou pensar nos benefícios do medo, na tentativa de melhor aceitá-lo.

Os homens gordos o olhavam como quem se acostumou com a miséria. Apenas o encaravam como se ele não fosse nada. Como se ele não merecesse recompensa alguma por sua digna fidelidade aos chefes das hierarquias. Como se, ali, nada disso importasse. Os gordos estenderam as mãos, envoltas com luvas brancas. Tentando esconder o medo, ele entregou o envelope pardo que, de repente, lhe pareceu  estar cheio de qualquer coisa ilícita.

Tendo cumprido sua missão, dirigu-se ao seu carro velho, acenando mais uma vez. Um dos gordos falou: "Um segundo". Ele parou, aterrorizado, sem acreditar no submundo que acabava de entrar. O outro gordo disse: "A grana tá errada", quase murmurou. Logo em seguida, um grito fez o homem de bem se arrepender por ser tão bom: "Vocês tão querendo foder a gente".

A arma, um revólver calibre 32 cano longo, meio retrô, brilhou na escuridão da noite. Fechou os olhos e fez seu último pedido: "Que o inferno seja um lugar bom".

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Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.