Absurdos noturnos

03:05

Quando nasci, um protótipo imperfeito de mim mesma, viram o meu pé tortinho e disseram Lá vem problema! Nada muito original, porque não se pode concluir outra coisa quando se põe mais uma pessoa no mundo. Se eu acreditasse na normalidade, essa que existe na teoria, que dizem ser a cura dos loucos, que muda de tempos em tempos, que caracteriza a exigência social, aquela que ninguém segue, mas que todo mundo cobra; Se eu acreditasse mesmo, não seria artista. E me diz quem não é? Quem nesse mundinho decadente não é um artista? Aquele que encena, que inventa, que cria, que pinta, que faz a melodia ou a letra, aquele que vê além, aquele que somos todos. Porque é fatal. O Éden foi obra de arte divina, fomos destinados a isso. Haha e por Deus. Mas um dia perceberam que era assim mesmo, quando compararam seus diagnósticos com o meu. A partir daí o normal se confundiu com o insano, porque na prática é tudo diferente. E eu que já cansei de sofrer pelos extremos de ser ou não ser, resolvi deixar ir, porque eu não coordeno o que virá nem o que me tornarei adiante. Virei então um casulo e vou absorvendo tudo que passa pela peneira. Esta que as virtudes a mim atribuídas a constituem. Ah haha E agora que eu estou aqui, sentada assistindo ao espetáculo deles, vi que faço parte integralmente disso. Mas eu me divirto, porque cansei de ir aos julgamentos e os deixo condenando ou absolvendo ninguém. Ah, vai, que eu seja perdoada, pois sou feita de amor dos pés a cabeça. Nada vai mudar isso, amor é a minha máxima. E nos nãos que me proibirem eu os beijarei; no tapa que me prenderão, eu os abraçarei. E vou rir com meus olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada, para que vejam quem eu sou e que entendam o que eu significo e me respeitem como dona e serva de mim, gauche na vida me tornei. E quer saber? Eu amooo isso, inteiramente. Amo sentir tudo, amo saber como é sentir tudo. Empirismo. Amo me fazer literatura, fingir tudo e depois acreditar. Amo pensar com a cabeça de uma dona e de sofrer como uma miserável. Não que eu ame a dor como uma masoquista, mas amo me sentir viva. Você sangra pra saber que está vivo. Ah, deixe-me com os meus devaneios, pois sei que adoram ver a pessoa que me tornei.

2 comentário(s)

  1. ClapsClapsClapsClapsClapsClaps
    Aplausos e de pé.

    É o que é, e se não fosse, não haveria como saber...

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Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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