carta

Pela loucura ou pela sanidade

23:31

Deixo-lhe esta carta, como um coringa em suas mãos. É uma saída, não muita satisfatória, para a dor que, provavelmente, causei.
Queria explicar-lhe por que eu fui sem avisar. Dizer o porquê da minha ida repentina ao mundo desconhecido que é a morte, ou a vida após ela.
Eu não sei se você lembra, quando eu disse que tinha crises de asma, sempre que você estava distante. Era verdade! Nunca menti pra você. Nem quando disse que estava na rua com minha mãe. E acho que essas crises eram, basicamente, psicológicas. Eu nunca gostei de me sentir só. Ficava sem ar.
Quando mamãe morreu, então... Meu mundo parecia ter desabado. Não tinha mais ninguém, só você. Na semana da morte dela, eu tinha crise quase toda hora, lembra? E no dia do velório? Eu fiquei internada!
Não me julgue ainda. Você pode dizer que eu poderia ter ido a um médico, a um clínico geral ou, até mesmo, a um psiquiatra. Mas eu fui! Você não soube, porque vivia se ausentando.
Não gostaria que se culpasse pela minha morte de maneira dolorosa, apenas se culpe.
Eu ficava desesperada sem você. Nunca tivemos filhos e isso me deixava mais louca ainda. A idéia de que eu não tinha ninguém para deixar minha história, minha bagagem, minhas marcas, dar um tapa nas costas e dizer: "Vai viver enquando eu descanso". Sim, essa idéia me enlouquecia.
E hoje, meu amor, hoje eu me senti a pessoa mais sozinha de todo o universo. Pois eu te vi com outra. Meu Deus! Solidão maior não há.
Você chegou ao ponto de me trocar, de desfazer a aliança que tinhamos. E sem ela, eu não tinha mais nada. A psicóloga tentou me falar sobre Deus. Eu nem sei, tomara que Ele tenha piedade de mim. Mas eu não aguento mais essa dor, esse sofrimento em vão.
É tudo passageiro, um dia vou ficar só de vez e espero que seja agora.
Eu te amo muito e te perdôo. Foi pela loucura ou pela sanidade que eu morri.

Luisa Albuquerque

conto

Ósculos de 99

15:44

Nunca me esquecerei do verão de 99. Eu havia decidido visitar Búzios com algumas acompanhantes aventureiras. Foi uma espécie de loucura independente. Estávamos livres de tudo. Fizemos as malas e eu fui dirigindo, no início. Depois nós revezávamos.
A primeira parada foi em uma lojinha de comida. A fome apertava e era um desespero. Parecia um maná dos deuses, aquele pão com presunto e queijo. Voltamos a estrada e depois de umas horas, chegamos em Búzios, definitivamente, exaustas. O vento não era problema, mosquitos não eram problema, nada nos impediria de dormir!
Achamos a pousada onde havíamos reservado um quartinho pela internet. Era confortável, simples e pertinho da praia. Entramos no quarto e nem nos preocupamos com malas ou banhos. Apenas deitamos para dormir. Eram 17h, o Sol indo embora e o meu sono estava com preguiça de chegar. Comecei a ouvir um rastro de música e farejei.
Da varanda, via um grupo de jovens, loucos como somos, iniciando, precocemente, um lual. Comendo na pousada e, provavelmente, iriam para a praia depois.
Eu estava descabelada, mas nessa idade a gente nem liga mais para o que irão pensar. Fiquei olhando, como quem quisesse estar lá, como quem queria ser convidada. Um rapaz me viu. Não sei se já estava me olhando, mas só o percebi quando ele levantou da cadeira e se direcionou para perto da minha varanda. Ele, devido a sua gentileza, perguntou se eu queria participar e disse que se chamava Jorge. Eu morri de rir, ele não entendeu.
Tomei banho e saí com eles. As meninas dormiam igual pedra! Só amanhã que eu as veria em sã consciência.
Fui ao encontro daquela galera imensa e sorri um riso agradável. Cantei as músicas e até toquei um pouco do que sabia. Às 20h, estávamos na praia. Eu achei Jorge uma figura diferente. Porque até as 20h ele estava usando óculos escuros. Lembro-me que sempre que, por distração, seu nome me fugia a mente, eu o chamava menino dos óculos escuros. Era o único. Era único.
Nessa hora, os casais já estavam abraçados e os outros ainda tentavam tocar violão, filosofar, rir e se divertir. Sentei ao lado de Jorge, numa ponta da areia que me confortou. Encostei a cabeça nos joelhos e procurei algumas conchas, só para passar o tempo.
Ele ficou me olhando, sorrindo. Eu sei, porque dei uma espiadinha. Depois, parei de mexer na areia e fiquei olhando-o. E ele disse que a lua não era nada em comparação ao azul dos meus olhos.
Um convite, fajuto, adolescente e pobre para um beijo. Mas, na hora, foi lindo. Eu precisava de qualquer palavra de carinho. Um beijo sincero, um abraço amigo. Mesmo com palavras clichês ou redundantes. Eu estava satisfeita com o presente que a Lua me deu.
Foi linda a noite. Às 5h da manhã, eu estava dormindo em seu colo, ele me despertou e disse para voltarmos. Fui andando, meio sonolenta. Ele me deixou no quarto e eu dormi, tranquilamente. Sentia-me amada. Um amor lindo.
Minhas amigas acordaram às 6h, mas eu não quis levantar. Depois do almoço, quando despertei, havia uma rosa em meu travesseiro. Perguntei a balconista sobre um rapaz, de óculos escuros, chamado Jorge. Ninguém sabia. Ninguém viu.
Mas eu sabia, eu senti, eu o vi. E nunca vou me esquecer do rapaz de óculos escuros. O rapaz e os ósculos, também.

poema

Nascimento

00:07

No fogo de uma paixão,
Surge uma poeta
Um poeta
Quanta identidade
Nas cinzas desse amor
Renasce. Fênix literária
Aprendeu a escrever
Com dois pingos de calor

prosa

Lembrança

23:57

Trocentos, quinhentos, seiscentos, seilá. Só conseguia pensar em quanto tempo você conseguiu me esquecer, de maneira tal que meu nome era estranho a sua mente e vocabulário. Esqueceu. Completo. Cem por cento. Zero, vígula, zero, um. E agora, eu penso, cuidadosamente, se devia voltar e perguntar se está tudo bem. Tola! Eu ainda penso em você, em falar com você, em seu nome, em seu número, em seu número de meias azuis, os pares perdidos, as unhas roídas. Penso nos cachos mal feitos, nos dedos tortos, na cicatriz retorcida. E é esse o pior. Que eu não me esqueço. Quantos dias mesmo que eu disse? Trocentos! Sei lá que bosta de número é esse. Inexistente. Talvez tenha sido assim. Não houve tempo parar me esquecer, porque nem ao menos tempo teve para que me lembrasse. E me vivesse, e me cheirasse. Que há? Esqueceu, dos meus pares de meia! Das vermelhas que eu usava. Enquanto fico aqui pensando nos seus olhos cor de mel, no azul, que eram as suas blusas preferidas. Pensando nos traços perfeitos do seu rosto e em como o mar parecia maior em seus olhos. Pensando em tudo o que fomos nós há trocentos anos atrás. Trocentos destroçados. Ossos do ofício, como diria o trocadilho. Que me esqueça, para que eu não queira deixar de te esquecer.

poema

18:21

Doze anos, devagar
Chego, agora
Peço pra parar
Tempo astuto, esperto é
Passa, voa, dá no pé.

crônica

Modernidade

18:44

Reuniram-se, em um cenário antiquado, com a finalidade única e, teoricamente, imutável de ingerir oralmente seus líquidos aguados com sabores variados. O famoso chá das quatro. Eu, como detesto chá, tentei descrever de uma forma menos nojenta.
Jordana, a mais velha, e Lorena, a mais nova, eram quem comandavam a facção, ou melhor, o encontro. Organizavam dia, horário e local. Como se fosse uma comemoração excelente e de essencial importância na vida de cada uma das irmãs Dias.
Jordana chamava atenção de uma forma tão diferente, que todas dispararam a rir, internamente, claro.
- Hoje a reunião ocorre por motivos óbvios.
Nesse momento, ouve-se (ou não se ouve?) um silêncio inquietante. Daqueles quando se esquece o que virá a seguir ou, simplesmente, a mente começa a ficar vazia, excluindo todas as palavras que você sabe na vida. Uma por uma.
Lorena, inquieta, berrou:
- Que comece o chá!
Meu Deus! Parecia uma corrida de cavalos, mas de uma forma chique, cliché e ponderada. Na high society tudo é ponderado. Eu achava que era.
Jordana estava na cor de seus botões rosados. Nervosa como era, a audácia da irmã a fez ferver o sangue. Logo ela.
Porém, Lorena sabia dissimular muito bem. Parecia não perceber e se agradar da situação antiquada que levava desde a morte de Alma, sua irmã.
Algumas horas se passam, trechos de livros são lidos. O chá é reposto, se me permite dizer. E a vida vivendo, o vento passando. Bate a hora da noite, quando as moças devem ir. Como se vivessem no século XVII.
Sem medo, nem hora. Lorena atreveu-se a levantar e dar um discurso final. Nada preparado, mas, completamente, proposital. Antes mesmo que começasse a dizer, Jordana já estava muito nervosa. Bateu na mesa e a olhou bem fundo, dizendo:
- Insolente!
- Como se eu fosse sua criada. Sou jovem e faço o que bem quero. - Era ela mesma dizendo, Lorena.
Todas voltaram a se sentar. Talvez pela ética, pelo medo ou, provavelmente, pela curiosidade.
- Você - Começou a dizer e andar em direção a irmã mais nova - Que sempre me ajudou, sempre quis que tudo desse certo. Por que se comporta dessa maneira?
- Querida irmãzinha, eu sempre quis que tudo desse certo, até pegar o jornal e ver a data. Bem - Parou e deu uma olhada, estratégica, a todas da mesa - Pergunte, aqui mesmo, quem sente prazer em estar aqui ao invés de estar se divertindo com amigos, maridos ou agregados.
O rosto de Jordana parecia que ia explodir. Ela era a pessoa mais tradicional que existia naquele século. E Lorena, que ironia, estava no auge de seus 16 e contava Dom Casmurro nas esquinas para quem quisesse ouvir.
- Quanta petulância! Como ousa agir assim enquanto vivemos um luto pela...
- LUTO? Jordana, Alma morreu há 10 anos! E outra, duvido que você está sozinha por todo esse tempo...
Muitas risadas se libertaram nesse momento. Lorena estava ganhando.
- Estou sim! Em memória de Alma Dias, uma guerreira, uma irmã que sempre cuidou de nós.
- Mas eu continuo duvidan-do!
Nessa hora, rapazes, Lorena deu uma piscada com o olho esquerdo e umas cinco pequenas se ajuntaram a Jordana. Não entendi mais nada, quando vi, por baixo de sua grande bata, havia uma roupa bem ousada.
- É disso que eu estou falando, irmãzinha. E não se envergonhe, porque ninguém pode te julgar. Afinal, estamos aqui só para te agradar. Mas meus dezesseis chegaram precocemente e com sede de liberdade. É esse, minha amiga, meu protesto contra a sua loucura.
- Loucura?
Envergonhada e humilhada, a mais velha puxou a irmã pelos cabelos e deu um tchau bem alto para todos. Chegou ao quarto, bateu a porta forte, ofegante.
- Parabéns, pequena, pela dramatização. O plano saiu perfeito. Moderníssimo.
E, finalmente, depois de décadas, a modernidade veio morar com elas.

nota

Nota

15:58

- Mãe, compra um livro pra mim?

- Qual livro?

- "Cem anos de solidão" do Gabriel Garcia Márquez. Uns amigos de indicaram, eu queria ler...

- Ahh, sei. (risos) Eu já li, muito bom. No início, você achará um pouco cansativo. Mas é muito bom... Afinal, são cem anos da história de uma família.

- Uhm...

- Mas o livro é muito caro! Proucura na bíblioteca da sua escola.

- É, vou ler lá, mesmo.

- Mas eu tenho outro dele aqui, se você quiser...

Ai, como minha mãe é inteligente! HAHAHA Isso aconteceu mesmo. Às vezes fico até sem graça com ela. Brincadeira.

nota

15:56

O Sol nasce e nem se importa com todo mundo na rua.
Às seis da manhã, nasce e não se importa com o seu sono.
O Sol nasce, porque tem que nascer.

Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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