Discurso exclusivo

20:13

Era um dia como outro qualquer, mas por incrível que pareça, esses são os mais imprevisíveis. Passava a tarde com Fernando, novamente. Ele tentava explicar-me seus cálculos algébricos, sem saber como aquilo me cansava. Um verdadeiro martírio. Contudo, dei um basta naquela perda de tempo. Disse que iria preparar algo para comermos. Cinco minutos depois, estávamos sentados, assistindo televisão e comendo pipoca. Era fácil persuadí-lo.
Nós nos divertíamos, facilmente. A capacidade que ele tinha de me fazer sorrir era imensa. Ríamos do filme, da fita fora do lugar, do cheiro de cigarro, do jardim lá fora. Quando estamos felizes até tristeza é motivo de alegria. Viviamos assim. Amigos há quase dez anos. Companheiros fiéis. Inabaláveis.
Resolvi relembrar minhas memórias e lhe mostrei fotos da minha infância. Quando estava revirando todas as gavetas, deparei-me com uma pulseira singela que continha um pingente minúsculo em forma de coração. Naquela hora, levei um choque e me senti com sete anos de idade, outra vez. Lembrei-me do rapaz que eu gostava. Escrevia até poemas. Poemas de criança, entenda. E o objeto que me fez entrar em transe foi um presente, mas que não veio sozinho. Foi acompanhado de uma declaração simples. Aos sete anos um "eu gosto de você" era fatal.
Nessa hora, meu semblante deve ter mudado. Recordei a atitude que tive. Eu neguei o meu amor pelo pequeno Marcos, perdi o meu momento e o meu primeiro amor.
Decidi, instantaneamente, que não queria mais perder momentos. A vida nos dá as oportunidades, se a gente não estragar nada, tudo vai dar certo.
Mostrei a pulseira a Fernando. Ele sorriu, tentando imaginar o que representava aquele acessório. Exclusa, mas brilhante. Talvez fosse uma personificação minha.
Sorri, como quem quer algo. Disse que estava cansada de deixar para depois o que eu quero hoje. Disse coisas que nem faziam sentido. Disse e só. Olhei-o, determinada.
De maneira surpreendente, Fernando sorriu, mas foi com os olhos. Confortomou-me, de imediato. E beijou-me.
Essa é a essência do amor. Entendi, juntamente com meu amigo, amado e parceiro que o amor está na cumplicidade. Éramos cumplices de uma história. Amantes de olhares. Nos entendiámos pelos gestos. Ele sabia das minhas intenções, antes mesmo que eu o olhasse. Porque estávamos ligados, estamos ligados. Somos, agora, um. E para sempre.

Querida Marta,

Este foi o esboço que fiz para dizer, em forma de discurso, no dia após a cerimônia de casamento. Por favor, minha irmã, analise segundo seu olhar criterioso e diga-me se gostou. Provavelmente, ele irá amar o flash-back.
Os vestidos estão prontos e estão aqui em casa. Venha logo no ínicio da manhã para deixarmos tudo em ordem. Preciso de você mais do que nunca.
Até amanhã. Será esplêndido.

Beijos,
Ana.

6 comentário(s)

  1. wow...
    meio que "Oi, simples assim." =D

    AEIOUAHEOIUH

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  2. De fato acho que para cada um existe alguém, mas á procura por essa pessoa que será para toda vida é um caso sério. uma alternativa de pura sorte,ou até mesmo erro.

    ~Entendemos da forma que lemos.

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  3. Nossa, me apaixonei junto com vc !

    Q lindo, q perfeito, q emocionante...

    Adorei!

    Hoje em dia me deparo com muitos escritores talentosos divulgando seus textos pela internet e isso me faz sorrir, de verdade!

    Vcs trazem alegria e humanidade para o nosso mundo cinza...

    Beijos ;*

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  4. muito legal o teu blog, e sua escrita!!!! parabéns pelo otimo texto...t+

    http://comumente-kilder.blogspot.com

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Isabella Mariano

Blog com conteúdo autoral da escritora Isabella Mariano.

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