Fluxos

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O que me incomoda é essa falta de satisfação. Tipo Rolling Stones, sabe? Tá que é boa a questão da utopia, pra gente seguir em movimento. Mas quando a coisa é entre a gente, entre eu e você, fico pensando onde fica a satisfação. Quanto de mim não basta pra te fazer feliz? Devo me preocupar isso? Eu, particularmente, acho que não. E acho que é bem por isso que abro mão do que você chama de nós sem muitas dificuldades.

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- Como foi no início? Nossa, foi uma dor que nem sei te dizer direito. Mas... acho que ainda tá no início. Não? Sei lá, tem tempo pra essas coisas passarem?

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Às vezes, eu acho que eu vivo num descompasso entre corpo e alma. Como se o tempo passasse diferente pra cada...

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Esses dias você me disse que estava apaixonado, meio que insinuando que fosse por mim. Rio agora porque, lembrando, acho engraçado você ter falado como se fosse a primeira vez que tivesse dito aquilo pra mim, ou pra qualquer outro alguém; pior: como se fosse a primeira vez que eu tivesse escutado essas palavras. Ou, sei lá, como se fosse naturalmente alguma coisa boa. Dois dias antes, me mandaram esta exata mensagem: "Tô apaixonado". Não me cabe entrar nesses assuntos. Nunca vi muita necessidade nessas declarações. E, sim, sou uma romântica não-assumida, mas sou! Só que, veja bem, certas literalidades me esgotam, me entediam. Eu perco o tesão e, automaticamente, a paixão. Meio contraditório, eu sei. Mas é o que tem acontecido, pelo menos, nos últimos 15 anos. Teve essa vez, desse cara que me ligou na noite em que nos beijamos pela primeira vez. Primeira e última. O inocente, mal sabia, ligou para dizer que estava apaixonado. Teve esse, este, aquele outro. Acabo saindo como a megera da história, mas é difícil me fazer entender quando preciso competir com qualquer manto sagrado da paixão. É difícil competir com o ideal, com as expectativas. Mais irônico ainda é eu te dizer isso, sendo que há um ano estava eu apaixonadíssima - só não disse; não literalmente. E sentia ciúmes, sentia falta, queria abraço, beijo, consolo. É que costumo deixar o tempo dizer essas coisas que não precisam ser ditas. Por isso, querido, temo que meu fatídico destino se repita agora - e, creio, se repetirá. Então, antes de mais nada, antes de qualquer dor, antes de qualquer medo, preciso que saiba: te amo.

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Por muito tempo acreditei nessa coisa de que ninguém é uma ilha e, confesso, não sei nem de onde veio. Joguei no Google, tal de John Donne e a frase completa é: "Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo". Concordo com suas intenções, John, mas de resto discordo abertamente. Pra mim, que não sou ninguém importante, todo mundo é uma ilha e aí, juntos, somos um enorme arquipélago, sabe? Tentando conexões, dependendo da água que vem e vai - mas cada um com sua coisa; sua dor ininteligível. E essa coisa de a ilha ser completa em si mesma é meio absurdo se você pensar no ciclo da água, no Sol e no resto da galáxia, não? Ah, bom... É o que eu penso, John. Mas sou só eu, postando num blog qualquer. Você é quem é citado no Pensador.com, não se preocupe. Só queria que, se der, em algum lugar, onde estiver (e se estiver), pense sobre isso, porque eu ando pensando. Bastante.

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Eu nunca sei se as pessoas estão sendo mesmo sinceras. Tem aquela coisa do instinto, que eu - crente - confio piamente, mas que não é certeza de nada, né? É tipo uma fé. A gente meio que é obrigado a ter fé nas pessoas, a confiar no que estão nos dizendo. Engraçado que, agora, vejo em seus rostos a vontade de me peguntar qualquer coisa, dizer qualquer palavra de consolo e eu mesma acho graça disso. Que bobagem! Mas, por fim, acho que entendem e veem em meu rosto quando digo que palavras não me consolam. Só o amor me consola.

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O silêncio absoluto existe de fato? Quer dizer, se a coisa toda é uma só, há de haver qualquer grito escondido enquanto a gente cala do lado cá. Silêncio bom é silêncio nosso, de alma. Esse silêncio outro, de fora pra dentro, chega a ser engraçado. A gente se pega tentando achar explicação pra tudo quanto é ruído. Pelo menos, eu o faço aqui na cidade. Tem sempre um motor ligado, um pneu freando, um grito de socorro ou de prazer. Tem sempre qualquer coisa acontecendo e se o nosso relógio não freia, tal qual - quase sempre - desesperado o pneu notívago, que fazer? A gente fica meio anestesiado, né... Taí. Por isso que eu digo que, ainda que o silêncio absoluto seja um mito, o silêncio da alma é o que me fez escapar diversas vezes da loucura sem propósito, aquela que deixa a gente meio robótico. Sei lá, ela é tipo meu pior pesadelo. E aí quando vem qualquer sintoma dela, sempre latente, saio de cena por uns minutos, por uns dias, por uns meses. Ah, nem penso bem o tempo. Só saio. Um pouquinho. Sabe? Ou não sabe?

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Fiquei feliz de te ver na semana passada e ter me sentido tão amada assim. É só um pouco triste, e me perdoe o egoísmo, a sua ausência. Mas tudo bem. Tudo bem...

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Ando meio solitária nessa cidade-nuvem. Talvez, as pessoas venham pra cá pra isso. Mas e quem nasce aqui? Não sei. Tudo aqui é meio nublado, sempre ameaçando chover. Inclusive, e acho que principalmente, as pessoas. Andei sentindo falta do sol e do mar e a oração de ontem foi só um desabafo sobre a falta que o litoral me faz. Hoje, fez um Sol quase inacreditável.

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É de se admirar que um céu pintado de pôr-do-Sol, um mar risonho a me cumprimentar e uma lenta brisa tenham o poder de curar, enquanto os pés se afundam na areia feito criança em abraço de mãe.

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Sinto-me cada dia mais certa sobre a sincronicidade da vida.

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Tenho pensado muito na coisa da autossabotagem. Percebi que faço isso o tempo todo. Com mais frequência do que imaginava, inclusive. Lembro que ainda criança deixei de convidar um dos meninos da turma para o meu aniversário porque havia descoberto sua paixão por mim. Quem foi que me ensinou a ser assim? É engraçado. A gente pula de pedra, bebe até perder a consciência, anda na cidade durante a madrugada, transa no primeiro encontro, mas basta que o abismo da paixão nos encare para que a criança amedrontada dentro de nós se manifeste. Por que tanta esquiva dos perigos de se apaixonar se, no fim, vamos sofrer de alguma e qualquer maneira?

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Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.