Tempos difíceis.

13:02

Chovia. Não se continha. Pintava os lábios rubros. Sempre dessa mesma cor e tom. Forjava uma dor. Ia para o pátio afim de que todos a vissem. Mas olhares desconexos a surpreendiam voando de acordo com o clima. Seus seios avantajados já nem faziam efeito. Se alguém dizia alguma coisa, não era o suficiente para que se sentisse realizada. Rolava no campo da paixão como uma louca. Paixão é loucura. Anestesiada por demasiada dor inventada, chorava. Seu pranto se misturava com a água da chuva. Sentia-se bem por influenciar no ciclo, o ciclo da vida. A água que jorrava dela. Água viva de uma dor quase morta. Uma dor zumbi. Uma dor que não a pertencia e que depois de digerida, seria destinada ao espaço. Todas as suas dores, ela devolvia a atmosfera. Era seu ciclo. Tomava veneno, mas não era humana para que a destruísse. Seu deus era o amor. E somente a ele servia com prazer. Porque o amor não tem inimigos e tudo sofre. Descabelada, sorrindo, forjando um peso de qualquer bebida escura, estava ela frente ao seu antigo amigo repetindo o que ouvia nas músicas. "Ainda há um pouco de você lá em casa". Como se sofresse por isso, como se gostasse disso. Ia embora de uma hora para outra, quando bem entendesse, sabendo que não precisava de nada daquilo. Seu eterno marido é o amor. Acendeu cigarros, borrados com sua cor. Sujos com sua água. Tragava como se estivesse recolhendo toda a dor do mundo. Ela fazia isso com amor. Quando se cansasse de fazer tudo por todos, levantava da poça d'água, ajeitava o cabelo e comprava um belo bolo para levar a sua mãe. Voltava para casa, sorrindo. Todos agora a olhavam, ela parecia ser a pessoa mais feliz do mundo. E felicidade é bonito de ver. Vivia assim na sua confusão de pensamentos, na sua patologia mental. Tinha dificuldades em separar o real do ilusório. Depois de tantos anos tentando não ser iludida e fracassando, acabou se confundindo. Mas continuava feliz. Viveu assim até morrer numa cama de hospital. Todos diziam que era louca. Mas ela era mesmo feliz (ainda que a loucura fizesse parte disso). Ajudava as pessoas e só dizia palavras de carinho aos necessitados. À noite, ajoelhava e pedia perdão por ser diferente. Mas ela era. E a essência do seu ser, amigo, é sempre a mesma.

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Mezzo jornalista, mezzo poeta. Minha vida é um (des)equilíbrio entre Beyoncé, Big Brother Brasil, Damien Rice, Maria Rita, feminismo, Leminski, Alan Moore e George Orwell. Isabella Mariano, 25 anos, Vitória, Espírito Santo.